sexta-feira, 19 de março de 2010

Os Guardiões da Pirâmide

Os Guardiões da Pirâmide João Carlos Holland de Barcellos ( Outubro / 2006 )

[Este ensaio procura explicar como um sistema de produção, como o capitalismo, depois de crescer até se tornar uma ideologia política dominante, afeta todos os ramos de nossas vidas e como consegue se manter apesar de beneficiar apenas uma minoria.].

Se alguém lhe perguntasse: “Quem você é?”, ou então, de uma maneira mais geral: “Quem somos nós?” No sentido de saber o que você acha de sua verdadeira essência, o que você responderia?

Talvez mandasse seu interlocutor “plantar batatas”, se filosofia não fosse mesmo sua “praia”, ou então, pensaria um pouco mais, e responderia algo do tipo “Eu sou minha consciência”. Desde a revolução industrial as populações, em especial as do mundo capitalista ocidental, têm aderido cada vez mais, e em maior grau, à cultura do “Eu consciência”. Antes de nos aprofundarmos nas conseqüências dessa crença, e o que ela veio a servir, devemos nos perguntar: Essa visão sempre foi assim? Se não, o que havia antes? Por que isso teria mudado? Para respondermos estas e outras questões precisaremos voltar um pouquinho no tempo...

A Revolução Industrial

Antes da revolução industrial, o modo como cada indivíduo fazia para ganhar a vida era bem diferente da de hoje em dia: não havia computadores, não havia anticoncepcionais, as famílias eram numerosas e pouquíssimos tinham algum tempo para filosofar ou pensar em coisas como o “sentido da vida” ou “a razão da existência”. Os homens trabalhavam duramente, em geral através de sua força física, para sustentar seus lares, e suas as mulheres cuidavam da casa e dos filhos. O objetivo básico era o sustento, a manutenção da família. O pensamento era bastante conservador: “Mulher trabalhar fora? Que absurdo! Onde já se viu uma coisa dessas?! Largar os filhos para ganhar dinheiro!?”. A religião tinha um papel muito importante no pensamento e na educação familiar. Naquela época, a resposta mais provável à nossa pergunta inicial deveria ser algo como: “Nossa essência está em nossa alma, claro.”. Sendo a suposta alma imortal, a essência do ser estaria garantida para todo o sempre no “Paraíso” ou noutro lugar seguro, dependendo da religião. Enquanto isso, a população aumentava, as terras cultiváveis diminuíam, e as cidades cresciam. Com o advento da revolução industrial, e a mecanização cada vez maior da força humana bruta de trabalho, a produtividade pôde ser multiplicada milhares de vezes. Abriram-se as possibilidades de comércio e de lucro com novos mercados, antes impossíveis de serem explorados já que a produção era movida apenas pela força animal. A mecanização fez aumentar o desemprego nas regiões não produtoras e aumentar a demanda por mão de obra, principalmente mão de obra qualificada, nas regiões fabris. Enquanto as empresas cresciam, e engoliam os pequenos produtores artesanais, novos problemas começaram a surgir.

Embora as máquinas vomitassem peças e componentes sem parar, ainda não podiam fazer, mecanicamente, o trabalho delicado de montagem ou de embalagem. Este trabalho ainda precisava de mãos humanas habilidosas. Além disso, com a produção em escala crescente, novos problemas apareceram: Como controlar a produção? A contabilidade? O controle de estoque, as contas? Como desenvolver novos produtos? Como fazer pesquisa de mercado? Antes das máquinas a vapor as empresas não podiam ser muito grandes e estes problemas não existiam. Mas a partir delas tudo mudou. As empresas cresciam, e para resolver estes e outros problemas relacionados a seu crescimento, houve um aumento da demanda por de mão de obra mais qualificada e especializada. O potencial de mercado, e de lucro, era enorme: Literalmente o mundo todo. O globo precisava ser suprido, e rápido, se não a concorrência o faria. Mas como resolver o problema de conseguir mão de obra qualificada sem onerar os lucros, e, de preferência de forma rápida e barata?

O Feminismo

A solução para estes problemas era urgente. E foi resolvido de forma rápida e genial: Se a mulher fosse introduzida no mercado de trabalho a oferta de mão de obra poderia ser rapidamente dobrada, já que a força bruta já não era mesmo mais necessária. A mulher poderia trabalhar em pé de igualdade com os homens e isso traria uma dupla vantagem ao capitalismo: Duplicaria a oferta de mão de obra e diminuiria, naturalmente, o salário médio já que aumentaria a concorrência. Com a diminuição geral do salário do homem, devido à crescente concorrência feminina, haveria naturalmente uma pressão para que a mulher, que não trabalhava fora de casa, também entrasse no mercado para, ao menos, manter o nível de renda anterior da família, já que seu marido teria seu salário reduzido. Mas para a mulher entrar no mercado de trabalho era imperativo quebrar o antigo estigma, o “tabu” de que ela deveria permanecer no lar cuidando da casa e dos filhos. Criaram-se então condições propícias para que o feminismo deslanchasse, e fizesse o “trabalho sujo” que o capitalismo precisava: Inocular em todas as mulheres o meme (a idéia) de que trabalhar em casa era coisa ultrapassada e antiquada. Que a felicidade não estava na família, em cuidar da casa e dos filhos, mas fora dela, que só se poderia ser feliz nessa vida se fosse encontrada independência financeira, mesmo que essa fosse apenas ao nível de mera subsistência. Apertar parafusos numa fábrica deveria ser, claro, muito mais digno do que amamentar seu próprio filho.

Assim, o capitalismo quebrou o primeiro e importante elo de felicidade da humanidade: As mães já não poderiam cuidar de seus filhos como vinham fazendo há dezenas de milhares de anos. Pois lhes fizeram acreditar que isso era antiquado e gerava infelicidade. Deveriam, a partir de então, prepararem-se para competir no mercado de trabalho com os homens. A meta feminina seria um cargo de executiva com alto salário e subordinados masculinos –oh glória! O casamento e a maternidade deveriam ser repensados. Se houvessem filhos, estes deveriam “se virar” em creches comunitárias, com babás ou então, para quem tivesse muita sorte, com suas avós. Mas estas, como veremos, deveriam cada vez mais, rejeitar este papel, já que elas também lutaram tanto para não tê-lo.

Ofereça teu filho ao “deus mercado”

Com o aumento da oferta de mão de obra e a mecanização da produção o conhecimento e a tecnologia tiveram grandes avanços. Isso permitiu que os produtos agregassem cada vez mais tecnologia e inteligência e, com isso, ficavam também cada vez mais caros. Além disso, o mercado precisava, cada vez mais, de pessoas com conhecimentos especializados, e isso demandava muitos anos de estudos. Pessoas desqualificadas não interessavam ao mercado de trabalho. Não se poderia constituir família e trabalhar antes de se passar pelo menos 15 anos estudando. Filhos úteis para o mercado custavam muito dinheiro. Além disso, famílias numerosas não poderiam adquirir produtos caros já que seus filhos precisavam passar anos e anos nos bancos escolares antes de arrumarem o primeiro emprego. Qual seria o mercado para uma produção cada vez mais sofisticada e cara? Família com poucos filhos. No máximo dois. Isso não apenas garantiria renda como também um mercado consumidor para os novos produtos “high-tech” que precisavam ser consumidos. Além disso, se criariam condições favoráveis para que as famílias preparassem seus dois filhos com qualidade nos estudos para que pudessem ser facilmente “consumidos” pelas empresas detentoras de tecnologia. Entretanto, como foi no caso do feminismo, para que esta solução também vingasse, seria preciso inocular nas mentes humanas um meme adequado.

O meme-vírus “vm2f”

A redução do número de filhos traria, portanto, um duplo benefício ao sistema: Aumentaria a oferta de mão de obra qualificada como também o poder de consumo per capita. Isso permitiria o crescimento do parque consumidor de produtos mais caros e com alta tecnologia agregada. Satisfazer o mercado interno era pré-requisito para disputar o grande mercado externo. Criaram-se então condições muito favoráveis para que o “vm2f” se disseminasse pela população. O “vm2f” (vírus-meme-dos-dois-filhos) é um poderoso agente meme viral que faz com que seu portador acredite - e independentemente da renda familiar!- que se ter mais do que dois filhos, é um ato que deve ser visto como arcaico, e obsoleto, que é uma prática ilógica e retrógrada, proibitiva mesmo, e que deve ser evitado a qualquer custo: “Onde já se viu uma coisa dessas?!?”, “Filho é coisa de pobre!, de gente ‘desletrada’, inculta e que não tem o que fazer!”.

Assim, o “vm2f” foi disseminado na sociedade, e atualmente contamina a mente de praticamente todas as pessoas dos países capitalistas. Quantos casais, que se consideram cultos, com mais de dois filhos, você leitor, conhece? Seria também interessante para o mercado que tal meme-vírus atingisse a maioria dos países consumidores, de outra forma não teriam renda para comprar as caras e sofisticadas quinquilharias produzidas pelos exportadores. A despeito da infelicidade individual gerada, ou não, o fato é que as medidas adotadas, a inoculação massiva de memes ideológicos específicos, geraram, pelo menos para os paises exportadores de artefatos tecnológicos –os de primeiro mundo- um grande acumulo de capital e de riqueza, o que possibilitou um excedente suficientemente grande para permitir uma significativa redução da jornada de trabalho e também dispositivos legais para distribuição de renda e redução da pobreza. Infelizmente, entretanto, para os países subdesenvolvidos, ou em desenvolvimento, importadores de bens tecnológicos e exportadores de matéria prima, ficariam o desemprego e a miséria.

“A Cultura do Eu”

De qualquer modo, seja nos países detentores de tecnologia, seja nos países consumidores dela, houve um aumento do conhecimento e do tempo livre disponível. Isso criou condições para uma maior reflexão crítica dos dogmas religiosos e uma grande proliferação de religiões e cultos alternativos. O “Céu” ou o “Paraíso” já não eram lugares garantidos onde se iria estar. A única certeza liquida e certa, era de que a felicidade podia ser sentida aqui mesmo, no plano terreno. Qualquer promessa de felicidade no “pós morte” poderia ser contestada já que, apesar dos esforços, nunca se provou nenhuma evidência científica de vida além da morte. Tais pensamentos produziram um caldo rico para o que podemos agora chamar de “A Cultura do Eu”.

A “Cultura do Eu” tinha -e tem- por norma básica o pressuposto de que a única felicidade que podemos realmente obter é aquela que poderemos sentir em vida. E este “Eu” reside na minha consciência já que é ela que de fato sente o prazer. Isso conduz a um individualismo extremado: “O meu prazer, a minha felicidade, está na minha consciência e não na do outro”. A “cultura do eu” faz com que o comportamento do homem capitalista médio seja direcionado a dois objetivos básicos destinados a obtenção de prazer: O Consumismo, e a Cultura do corpo.

O Consumismo

O Consumismo é uma maneira de obter prazer através do mercado: Comprar, comprar e comprar. Assim o dinheiro é o grande valor, através dele se pode dar vazão aos chamados “sonhos de consumo”. A obtenção de bens também traz prazer na forma de “Status” já que compra mais quem pode comprar mais e, claro, a obtenção de status patrocina o poder de sedução sobre o sexo oposto (ou o mesmo). Embora não seja elegante ficar desfilando com um aparelho de DVD último tipo pendurado no pescoço, nem ficar falando o que se comprou ou vai se comprar é norma social aceita falar das maravilhosas viagens que você fez para os lugares mais lindos e caros possíveis ou desfilar com aquele carro da propaganda da TV. As viagens não teriam tanta graça se não se pudesse falar delas: Pra que comprar um lindo vestido se ninguém poderá vê-lo? Além disso, as viagens representam o ápice da cultura do Eu: O investimento no prazer imediato, no que o corpo pode sentir agora. Pra que poupar e economizar (para os filhos?) se o que eu quero mesmo é sentir tudo o que eu puder sentir? Afinal, a vida é só uma!

Meu cérebro é a fonte do meu prazer e, necessariamente, ele está atrelado a um corpo. Se o corpo não estiver “Ok” a mente também não estará, afinal, as dores do corpo são sentidas no cérebro, na consciência. Além disso, se a felicidade só pode ser vivida na Terra, uma felicidade máxima só é conseguida través de um tempo de vida também máximo! Cuidar bem do corpo é um meio, portanto, de aumentar a felicidade em vida. Iniciou-se então a “Cultura do Corpo”.

“A Cultura do Corpo”

A “Cultura do Corpo” parte do pressuposto que só podemos ter uma mente sã – capaz de usufruir prazer- se o corpo também estiver são. As academias de ginástica e malhação se encheram como nunca. Caminhar, correr, malhar tudo era válido, quem não lembra do “método Cooper” que proliferava mais do que coelho? A gordura virou a grande vilã, sinônimo de veneno. De uma hora para outra surgiram mais receitas para emagrecer do que estrelas numa noite de verão. Criou-se mercado para todo tipo de alimento possível e imaginável desde que prometessem um corpo mais saudável ou bonito: Alimentos e bebidas “diet”, “light”, com fibras, sem colesterol, com HDL, sem HDL, e etc.etc.etc... Quem não praticasse algum tipo de exercício, não caminhasse, não corresse, estaria na contramão da vida. O “cult” era, e ainda é, cultuar o próprio corpo.

Muitos esqueciam, talvez nunca souberam, que a moda do corpo deveria ser destinada a um aumento de felicidade, e não como um fim em si mesmo. Assim, podia-se perceber pessoas que sofriam muito em suas malhações, muito mais do que poderia obter de prazer através dela. Pessoas que ficavam horas e horas correndo e se exercitando sem parar. O objetivo foi esquecido, e o culto ao corpo acabou virando uma finalidade em si mesmo.

Luta inglória

Este tipo de comportamento, individualista ao extremo e egoísta, era disseminado e enaltecido. Lembro-me de ter lido uma reportagem sobre uma mulher na faixa dos 40 anos de idade que se vangloriava de não ter tido filhos e através de muita malhação e ginástica diária ainda possuía um corpinho de “39”. Até quando poderia ela lutar contra o tempo? Luta inglória essa de perder tanto tempo tentando retardar o tempo e parecer um pouco mais jovem. Se gasta dez anos da vida para parecer cinco anos mais jovem!

Individualismo e Neoliberalismo

A “Cultura do Eu” trouxe consigo o individualismo extremado. Filhos são considerados perda de tempo e um sorvedouro de preciosos recursos que poderiam ser bem utilizados numa deliciosa viagem a búzios ou na compra daquele carro que a TV anuncia. E, se ainda temos um “maldito instinto” para eles (filhos) então que tenhamos um, no máximo dos máximos dois. Isso será suficiente para para aplacar, para saciar estes ultrapassados instintos animais que insistem em atrapalhar nossa vida de prazer.

Para o individualista, a única felicidade que importa é a que ele consegue sentir, a vivida pelo seu corpo. Promessas de um mundo melhor para futuras gerações não lhe toca em absoluto. O individualista é, portanto, e antes de tudo, um imediatista. Não lhe interessa se esforçar se quem vai usufruir de seus esforços não será ele, e sim as próximas gerações. Assim o individualismo tende a levar a sociedade e o ambiente a uma degradação constante. O Neoliberalismo é a ideologia econômica que mais se adequada ao individualista. A ideologia neoliberal apregoa a liberdade total de comércio entre países com a mínima ou nenhuma intervenção do estado e isso significa, de preferência, sem nenhuma taxa de importação. Dessa forma o individualista poderá consumir rapidamente uma ampla diversidade de produtos importados e a um preço bastante acessível.

Não importa ao imediatista se isso irá quebrar as indústrias nacionais[8] – desde que elas não quebrem enquanto ele trabalhe numa delas- já que as empresas costumam agonizar por um bom período até fecharem ou serem vendidas para alguma transnacional, com o conseqüênte enxugamento de pessoal e extinção das áreas de desenvolvimento que isso costuma acarretar.

O que o neoliberal quer mesmo é comprar suas bugigangas a preços baixos. Para que “reinventar a roda” se já existe o produto pronto lá fora? Seu pensamento é imediatista: ”É mais barato e rápido importar tudo pronto, pra que desenvolver?”. Assim, o neoliberal é antes de tudo um derrotista, mas claro, não o neoliberal de um país desenvolvido, e detentor de tecnologia. Para eles o neoliberalismo é muito bom, é uma garantia de lucros e empregos para seus compatriotas. Exportar sua produção não é apenas uma forma de ganhar mercado, mas principalmente de evitar que outros países consigam desenvolver tecnologia e concorrer com eles no mercado internacional ou no seu próprio mercado doméstico. Para que correr esse risco?!?

Podemos concluir que o individualismo é uma decorrência direta da questão filosófica fundamental “Quem somos nós?” quando a resposta está centrada numa consciência, num corpo ou em um tipo qualquer de individualidade. O individualista não se importa muito com a felicidade futura de seus conterrâneos, já que, provavelmente, não estará mais neste mundo para vivê-la. Não importa para ele se o país seja um eterno dependente de tecnologia, ou não, já que o importante é poder ter sua sede de consumo saciada rapidamente. Sua ideologia pode ser resumida numa pergunta: “Para que sofrer agora construindo um futuro, se não se estará aqui para usufruir?”

Religiões: a “Matrix do Capitalismo”

O problema da “Cultura do Eu”, e o individualismo que dele emerge, não traz consigo apenas o egoísmo e suas conseqüências nefastas, ele, na realidade, impede uma felicidade plena do próprio individuo, impelindo-o a uma vida consumista, “vazia” desprovida de um sentido transcendente. As religiões tradicionais perderam muito terreno, e continuarão perdendo, simplesmente porque elas são inconsistentes, e tanto o conhecimento como o QI médio da população tendem a crescer ficando cada vez mais claro as contradições dos dogmas religiosos e a realidade dos fatos. Não é por outra razão que uma miríade de seitas e cultos místicos se proliferaram tanto. Entretanto, mesmo as seitas místicas ou os cultos esotéricos, para uma mente um pouco mais lúcida, deixam a desejar, pois tais seitas são baseadas em princípios sem nenhum respaldo científico ou factual, o que vem a contrariar frontalmente a “Navalha de Ocam”[9].

Apesar disso, o sistema investe pesado – escolas e instituições de ensino pagam impostos, igrejas e templos não-, principalmente através da mídia, na cultura religiosa, qualquer que seja ela. Todo tipo de religião ou seita, mesmo que sejam totalmente antagônicas ou contraditórias umas com as outras, é tolerado e considerado normal. Ninguém deve ousar por em dúvida ou criticar a crença alheia sob pena de ser taxado de “intolerante”. As contradições entre elas, para o bem do sistema, devem ser ignoradas, afinal, um mesmo deus não seria tão esquizofrênico para ditar normas diferentes para seitas diferentes. O Ateísmo, por outro lado, não pode ser tolerado e deve ser visto como uma aberração da natureza. Entretanto isso não ocorre sem razão: A grande massa, a que forma a base da pirâmide, é inculta e, ao mesmo tempo, extremamente perigosa. Se rebelarem-se ideologicamente contra o sistema, este corre o risco de ruir. Para mantê-los passivos é necessário dar-lhes esperanças de uma vida bem melhor – o Paraíso – e mais: tanto maior será a chance de conquistar este paraíso, quanto mais sofrida e servil for sua vida aqui na Terra. Deve-se passar a eles a idéia de que, se estão passando por dificuldades, isso não é culpa do sistema, que não distribui riquezas com justiça, afinal “o sistema é o melhor de todos, voce não vê na TV? ”, a razão de seus sofrimentos, claro, são deles mesmo, e pode ser explicada pelo que fizeram em suas vidas passadas (Espiritismo); Ou então no grande pecado que seu antepassado (Adão) fez ao desobedecer ao “Pai” e que por isso todos, sem exceção, devem pagar (Catolicismo); Ou então, se sua religião não tem uma explicação para o sofrimento, por certo tem uma boa razão para que você não anseie uma vida melhor: Afinal, desejar coisas que você não pode ter é todo o motivo de seu sofrimento, e por isso você deve evitar desejar. Desejar é errado, tenha apenas o suficiente para sobreviver (Budismo).

As Religiões são tentáculos do sistema

O sistema incute na base da pirâmide, formada pelos que tem menos acesso à informação e educação, que a responsabilidade pelo sofrimento nunca é do próprio sistema. Se, por exemplo, seu vizinho está desempregado e passando fome, o sistema quer que você acredite que a culpa é dele mesmo, ele que não foi esforçado o suficiente para conseguir um emprego. Mesmo que o emprego se escasseie cada vez mais com a mecanização e a globalização[1]. A culpa nunca é do sistema. Neste ponto entram as religiões e igrejas atuando de forma a sublimar uma possivel revolta: O que você deve fazer é rezar bastante para que Deus não permita que isso aconteça com você também. Assim a reza funciona como sendo uma importante válvula de escape contra uma possível revolta da imensa multidão que está nas camadas mais baixas da pirâmide sócio-econômica.

Além da reza, este tentáculo do sistema conta com outras formas de arrefecer o sentimento de revolta: Fazer com que haja uma redistribuição de recursos dos que já não tem muito a distribuir. Trata-se da Caridade. A Caridade é um modo de o sistema retirar recursos daqueles que pouco tem para distribuir aos que tem menos ainda, e claro, sem incomodar os que estão no topo. Querendo ou não nascemos neste sistema e estamos imersos nele. Atos caridosos devem ser vistos não como uma obrigação religiosa ou como uma forma de azeitar nosso caminho a um paraíso que não existe[2], mas sim como uma forma de minimizar as conseqüências nefastas de um regime auto-destrutivo [1] que insiste em não evoluir.

Os “Guardiões da Pirâmide”

É interessante notar como o sistema, como um grande polvo acéfalo, consegue se auto-perpetuar. Não há necessidade de uma mente centralizadora e malévola orquestrando quais os próximos truques e artimanhas que deverão ser criados para que o povo continue passivo e conformado. Não há um pequeno grupo de capitalistas, ricos e poderosos, pertencentes a uma seita secreta, decidindo qual a próxima religião será criada e quão eficiente será em promover a ilusão e a esperança. Nada disso. O que acontece é o trabalho voluntário, e de certa forma, até inconsciente, dos que estão no topo da pirâmide sócio-econômica. Eles sabem muito bem o que têm lá embaixo e não querem, de modo algum, sairem lá de cima e perderem suas regalias. O topo da status, poder, dizem que até é afrodisíaco. Quem gostaria de sair e dividir? Governantes, legisladores, grandes empresários e comerciantes, e, principalmente, jornalistas e seus diretores, atuam em suas respectivas áreas de modo a manterem-se – e também seus amigos e parentes - em seus postos privilegiados e de altos salários.

Os legisladores, por exemplo, criam leis com brechas para que o pessoal do TOP da pirâmide jamais fique enclausurado (prisão foi feita pra pobre), ou que a propriedade privada seja considerada sagrada e inviolável, ou que a quebra de sigilo bancário seja um crime pior que o assassinato etc.; Os empresários e comerciantes financiam a campanha dos partidos que favorecerão suas empresas e negócios na esperança de que seus lucros nunca diminuam; A mídia mostrando que o inferno é não fazer parte do sistema, ou que todos os eventos bons são provas da existência divina e por ai vai... Cada um que está no topo, e não quer correr riscos de sair, dá a sua pequena, ou grande, contribuição para que a pirâmide permaneça firme e bem plantada, independentemente do que ocorre lá na base. São os “Guardiões da Pirâmide”. Se você sempre diz “Graças a Deus” quando ocorre um evento bom mas, contraditoriamente, não diz o mesmo quando ocorre um evento ruim, então você também é um pequeno guardião, talvez até inconsciente, já que estaria contribuindo para manter a crença no inexistente[2] e, portanto, ajudando a manter o tentáculo religioso do sistema.

Genismo

Para os seguidores do Genismo [3] “Nós somos nossos genes”. Isso significa que nossa essência não está em nosso corpo e nem mesmo em nossa consciência e sim no nosso conjunto de genes. Entretanto, diferentemente de um “eu - consciência”, o “eu - gene” não reside apenas em nosso corpo e isso faz toda a diferença do mundo. Nossos genes estão também em nosso corpo mas não apenas nele, estão também em grande proporção em nossos filhos, depois, em taxa decrescente, em nossos parentes, em nossa espécie, depois em nosso gênero, família, ordem, classe, filo e reino. Assim, temos genes compartilhados, em maior ou menor proporção, em todos os seres vivos do planeta.

Por esta visão do que somos, cada organismo vivo possui um pouco de nós e, claro, somos também uma parte do que eles são. Isso acontece pela simples razão científica de que todos os seres vivos são descendentes de um primeiro ancestral comum: Uma molécula replicante, talvez algo próximo a um pequeno segmento de RNA, que flutuava ao léo, no chamado ‘caldo primordial’ da Terra há cerca de três ou quatro bilhões de anos atrás.

Como somos todos descendentes desta molécula replicante todos compartilhamos uma mesma origem e os mesmos ingredientes básicos que formaram a vida. Assim, quanto mais próximos estivermos na árvore evolutiva, mais semelhantes e mais empáticos seremos. Por esta razão seremos mais sensíveis, teremos maior empatia [4], ao observarmos um mamífero como, por exemplo, um macaco sendo pescado, ao morder um alimento com um anzol, do que, um peixe ou um réptil. Entretanto, nossa empatia será maior para seres de outras espécies se os observarmos como organismos que compartilham parte de nós mesmos do que se os enxergássemos como um outro organismo, totalmente distinto de mim, e que não tem a minha consciência. Esse tipo de atitude para outras espécies pode ser tanto mais radical e egoísta quanto mais o “eu-consciência” dominar a mente humana.

Consciência efêmera

Um genista sabe que sua consciência é efêmera e seus genes não. Após a morte de seu corpo seus genes permanecerão. Isso significa que seu “eu-gene” sobreviverá, de alguma forma, nos indivíduos que permanecerem vivos. Preservar a vida é, portanto, uma forma de preservar a si próprio. O meio-ambiente é onde a vida se manifesta. Se quisermos preservar a nossa imortalidade genética deveremos preservar o lugar onde ela se dará. Assim, no genismo, preservar o meio-ambiente não é apenas um modismo de época, é uma segurança de que preservaremos a nós mesmos, em outros corpos ou organismos.

Para um individualista pode não ter muita importância o destino de seu país num futuro longínquo. Se a Amazônia cairá ou não em mãos estrangeiras, se as indústrias deixarem de ser nacionais ou não. Isso não é importante para ele. Ele não estará mais aqui mesmo se estas coisas acontecerem. Talvez, seja ainda melhor que seu país adote o modelo neoliberal e ele possa então se abarrotar de quinquilharias modernas e baratas. Muito tempo pode se passar até que todas as indústrias quebrem frente à concorrência internacional, ele já não estará mais aqui para saber e já terá usufruído bastante do livre-comércio. Por isso, quanto mais centrado o indivíduo está em seu “eu-consciência”, maior será seu egoísmo, menos preocupado estará com o destino de seu país e mais neoliberal ele será. Dessa forma o nacionalismo, sentimento de proteção à pátria, tende a ser maior nos genistas pois estes sabem que seus genes tenderão a ficar no mesmo país. Proteger o seu país é proteger seu próprio futuro genético.

Pode-se argüir, com certa razão, que não é importante o local onde a felicidade é gerada, se criamos felicidade em nosso país ou não. Assim, se deixarmos de produzir empregos aqui para importarmos de fora estaremos criando emprego lá fora que será sentido por alguém também e assim estaremos, de certa forma, exportando felicidade. Esse argumento é parcialmente verdadeiro, mas peca nos seguintes quesitos: Se a produção externa for feita, por exemplo, de forma mais automatizada que a nossa, então nossos empregos não seriam revertidos em felicidade na mesma proporção que são retirados daqui. E, mais importante do que isso, se, por exemplo, tivermos uma ideologia de que deveremos deixar de ajudar nossos filhos para ajudarmos os filhos do “vizinho”, não obteremos a mesma felicidade do que se ajudarmos os nossos próprios filhos. Isso porque fomos construídos geneticamente para ajudarmos em maior grau nossos próprios genes que estão em maiores proporções nos nossos filhos do que nos filhos do vizinho. Ou seja, o nacionalismo não é apenas uma forma de ajudarmos a nós mesmos no futuro, mas uma forma de aumentarmos a felicidade total do planeta já que a felicidade está atrelada à forma gene-perpetuativa de se agir.

A “Meta-Ética-Científica”

O genismo está atrelado a “Meta-Ética-Científica” (MEC) [5]. A MEC estabelece que sempre se deva agir no sentido de maximizar a felicidade. Ações justas e éticas são aquelas que patrocinam maior felicidade em relação às outras.

A partir deste principio de maximização de felicidade podemos concluir que um desnível muito grande na distribuição de renda deveria ferir a MEC. Para entender isso, pense no seguinte caso hipotético: Um rico empresário gasta dois milhões de dólares num carro esportivo para atender seu desejo de status. Ele para com seu formidável carro num farol onde uma mulher miserável com seu filhinho de colo, que naquela noite irá morrer de frio, pede alguns trocados. Você acha justo que se possa gastar dois milhões de dólares para atender um capricho de consumo enquanto seres humanos, ao seu lado, morrem, literalmente, de necessidades básicas? Se você for um “Guardião da Pirâmide” a resposta será SIM. Caso contrário achará que não tem muito sentido que este tipo de coisa seja possível de acontecer. Um sistema que permite que alguns poucos possam se dar ao luxo de gastar muito para atender a um capricho consumista[6] enquanto muitos morrem de fome, não é um sistema que nós possamos nos orgulhar[7].

Entretanto, sabemos que o homem é um ser competitivo por natureza, quer e precisa se destacar, por isso seria contra a natureza humana colocá-lo em um sistema de produção que nivele todos na base, como se todos fossem iguais. As pessoas são diferentes uma das outras, possuem capacidades diferentes, algumas mais esforçadas, outras mais criativas, outras mais inteligentes, e assim por diante. Obrigar o mais esforçado e criativo a ganhar o mesmo que um preguiçoso também seria injusto. Temos que dar vazão e liberdade e à criatividade humana. Os sistemas que quiseram engessar a todos, como se todos fossem iguais, não deram muito certo: Provocaram sofrimento e frustrações desnecessariamente. Tolheram demais a liberdade e a capacidade criativa humana. Os mais criativos ou esforçados precisam ser recompensados pela sua capacidade ou engenhosidade, além disso, haverá mais dinamismo e produtividade se souberem que poderão usufruir para si e suas famílias pelo menos alguma parte daquilo que batalharam duramente em suas vidas. E, claro, ninguém que quisesse trabalhar poderia ficar sem emprego, que seria um direito fundamental de cidadania.

Referências:

[1] ”Economia Virtual” (http://www.genismo.com/logicatexto21.htm)

[2] ”O Diabinho Azul Jocaxiano” (http://www.genismo.com/religiaotexto32.htm)

[3] ”Os Pilares do Genismo” (http://www.genismo.com/genismotexto2.htm)

[4] ”O Empatismo” (http://www.genismo.com/genismotexto54.htm)

[5] ”A Meta-Ética-Científica” (http://www.genismo.com/metatexto44.htm)

[6] ”O repugnante consumo de alto luxo ” (http://www.genismo.com/memeticatexto21.htm)

[7] ”2% concentram metade da riqueza mundial ” (http://www.genismo.com/memeticatexto22.htm)

[8] ”O Nacionalismo é compatível com o Genismo ” (http://www.genismo.com/genismotexto53.htm)

[9] ”A Navalha de Ocam ” (http://www.genismo.com/logicatexto24.htm)

quarta-feira, 10 de março de 2010

Revolution in Law

Revolution in Law Joao Carlos Holland de Barcellos, Jan/2008 translated by Debora Policastro The Scientific Meta-Ethics advocates that the fairest lawsuits, or ethically correct and fair, are the ones that provide the greatest happiness in the maximum period of time in which this happiness could be evaluated. Likewise, we know that the role of law institutions, that is, the goal of the people who work with law, like lawyers, prosecutors and judges, in short, the judiciary, is to make justice: all the facts must be investigated in order to make the judgment as fair as possible. If by any chance facts and evidence cannot be analyzed and judged, justice can make a mistake. However, it is necessary to expose the truth in order to investigate the facts with strictness. The truth would be composed of a set of facts and evidence that are relevant in the case to be judged. Nevertheless, we know that the lawyers are not formally or legally committed to showing each evidence they might have when they contact their clients, especially if this evidence is against his client’s objectives. Nowadays, there is no formal commitment to Justice that obliges lawyers to show facts and evidence they know of, or that might come to their knowledge and incriminate their clients, even if these facts and evidence are crucial for the verdict. No lawyer will take criminal responsibility if he/she omits evidence that could incriminate his/her client. Such possibility exists and is supported by law: no lawyer can be incriminated for defending a respondent. This ethical and judiciary mistake, as a flaw in Justice, must be corrected. Besides preventing justice from obtaining all possible data for a fair judgment, it promotes criminality, since it enhances the possibility for a criminal to be acquitted by lack of evidence (or evidence consciously omitted). In case there was a change in Law that obliged lawyers to expose all data and evidence they acknowledge, even if they are against their clients, as long as they are relevant to the case, so they could be appreciated by the judge and jury, there would be a more transparent, ethical and fairer lawsuit. In this principle it is necessary that everyone, especially the defenders, exposes the truth even if it can eventually go against the clients. This alteration in justice would also prevent lawyers from working against their nature of justice, for they would not be obliged to defend at any cost, even with moral and emotional harm, their criminal clients. That way lawyers, not being obliged to eventually become “semi-accomplice” of their criminal clients, would be at peace with their consciousness. They would know that their main duty is with justice and, only after that, with their clients. Obviously, the prosecutor, the state department and the police would also have the legal obligation of showing evidence that might pronounce the respondent not guilty, in case they knew any. The prosecutors’ function of incriminating the respondent is not a reason for the other parts to omit evidence that could pronounce the respondent not guilty. This is not a game where the target is to win or to lose: the objective is to make justice, and everyone should be engaged in this, including justice itself, by altering laws that are necessary to reach this goal. This is a proposal so truth and justice can prevail again. Portuguese Version: http://www.genismo.com/metatexto53.htm

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Decreto sobre Direitos Humanos do Governo Federal,Um desabafo.

Decreto sobre Direitos Humanos do Governo Federal,Um desabafo. Por Jocax A imprensa e a midia esta vociferando contra o decreto porque este abala seu poder. Um dos itens do decreto diz: "Elaborar critérios de acompanhamento editorial a fim de criar ranking nacional de veículos de comunicação comprometidos com os princípios de Direitos Humanos, assim como os que cometem violações." É natural que quem esteja no poder nao queira sair de la. Assim como quem tem o poder da midia sobre a opiniao publica tambem nao queira perde-lo ou diminuir tal poder. Quantos ditadores resolveram permanecer no poder depois de experimenta-lo? Com os "donos da midia" tambem nao deve ser diferente, ninguem gosta de perder poder. Hitler sabia bem da forca da propaganda da midia sobre a populacao em geral ao instituir o seu "ministerio da propaganda", pois a opiniao publica é facilmente manipulavel, e quem tem o controle da midia, da formacao da opiniao publica, pode tambem mudar o destino de um pais. Foi o que aconteceu na eleicao de Collor aa presidencia quando disputava a presidencia da republica contra Lula, e às vesperas da eleicao uma certa emissora manipulou os momentos do debate mudando talvez de forma definitiva o destino das eleicoes presidenciais e do país. O que é interessante observar é que o governo -eleito democraticamente - deveria ser o representante natural do povo, e portanto, nada mais natural que o governo verificasse o que alguns orgaos da midia estao patrocinando. A sociedade (representada pelo governo) deveria permitir que "meia duzia" de empresas que mantem o oligopolio dos meios de comunicacao "pintem e bordem" com a opiniao publica? impondo seus pontos de vistas particulares a milhoes de ouvintes, muitos dos quais menores de idade e sem um pingo de instruçao? Os detentores do poder da midia alegam que o governo esta tentando inibir a democracia como se alguem da populacao tivesse realmente o direito de ir a um "Jornal" televisivo de grande audiencia e expor sua opiniao!!! A Opiniao dos donos da imprensa nao eh a opiniao do povo. Essa alegada democracia nao existe! Se a midia quer uma democracia verdadeira deveria abrir seu espaco editorial para que QUALQUER PESSOA do publico em geral pudesse expor seus pontos de vistas, ou entao que o proprio governo ( REPRESENTANTE OFICIAL DA POPULACAO ) expusesse seus pontos de vistas em seu horario nobre, isso sim seria uma verdadeira democracia de opiniao publica e nao vociferar que "meia duzia" de empresas tenham o direito de comandar a opiniao publica a seu bel-prazer como se isso fosse uma democracia de opiniao. O que ocorre na verdade eh que atualmente existe um CARTEL ELITISTA E DITATORIAL da midia que invoca justamente o "anti-democratismo" do decreto para tentar manter seu poder ditatorial elitista de manipulacao da midia. Se a midia fosse realmente democratica cederia seu espaco publico de grande audiencia para quem representa o povo: O governo eleito democraticamente.

domingo, 15 de março de 2009

Individualismo para manter o casamento?

Eh tudo uma grande hipocrisia capitalista. Desculpem, Hoje estou meio revolucionario esquerdista e desabafador ! rsrsr O Fato eh que ficar GARIMPANDO amor onde ja nao existe , como num casamento falido eh perda de tempo. O fato eh que os ideologos que servem ao sistema cambaleante procuram mante-lo a todo custo. Esta reportagem do Flavio, que ja foi meu idolo, mostra apenas como vc se infectar de um meme para manter a "INSTITUICAO FAMILIA" que da base ao capitalismo estavel. O capitalismo precisa de concentracao de renda para manter o poder de consumo de bens de alto valor agregado que mantem as empresas funcionando. Na familia capitalista padrao depois que seus dois filhos crescerao e estao "encaminhados" para ter seus dois filhos casa e carro do ano os instintos dessa familia perdem a razao de se manterem juntos. O q o Flavio ta dizendo eh para SE MANTEREM FISICAMENTE JUNTOS MAS SEPARADOS DE FATO: Cada um fazendo o que gosta sem a cumplicidade da parceria, esse seria o METODO de manterr a familia, ou o que restou dela, COESA e nao por em risco a instituicao familia. Ou seja: propoe um PALIATIVO para os pretendentes ao sarcofago se mantenham unidos mesmo que a custa do resto de felicidade que lhes restariam. Eh uma forma de continuarem zumbis: Mortos-vivos para servirem ao sistema. Nao estou dizendo que a separacao eh necessariamente MELHOR SEMPRE, TALVEZ ateh seja mesmo ! Mas poderia causar uma especie de CAOS social. Mas nao vou me prolongar muito com esse assunto, acho q depois talvez , escreva um artigo sobre isso :-) Ja desabafei ! rsrs Bom domingo a todos []s jocax --------------------------- Como ter um relacionamento duradouro e feliz O psiquiatra Flávio Gikovate dá entrevista exclusiva para a GLOSS e afirma: "O amor não é um parque de diversões" Por: Regina Terraz Foto: Ludovic Caréme ----- PAGINA 01 ----- Em seu livro Uma Nova Visão do Amor, o psiquiatra Flávio Gikovate diz que procurar no ser amado o seu complemento, a sua outra metade, é um perigo para a saúde do relacionamento. “Antigamente um dos pares precisava sempre fazer grandes concessões, porque os casais imaginavam que tinham de fazer tudo juntos”, diz Flávio. “As pessoas estão mais individualistas e aprenderam que a chave de um relacionamento sereno é o respeito pelas diferenças de gosto”. Flávio é formado em medicina pela Universidade de São Paulo (USP) desde 1966 e autor de 25 livros que já venderam mais 600 mil exemplares nos últimos 30 anos. Escreveu durante anos para a Folha de São Paulo e para a Revista Claudia. Toda essa experiência você confere agora em uma entrevista com dicas preciosas para manter um bom relacionamento com o seu amado. Na foto: Esther e Marcello, casados há 57 anos ----- PAGINA 02 ----- A entrevista GLOSS - Baseada na sua experiência como profissional, quais conselhos você daria a quem está pensando em casar agora? O que é importante levar em conta, observar, refletir para ter um relacionamento duradouro e feliz? Flávio Gikovate - O primeiro ingrediente para um relacionamento duradouro reside na escolha do parceiro: quanto maiores as afinidades de gostos e interesses, mas, principalmente, de caráter, melhor. Gente honesta deve se relacionar com gente honesta. Isso é essencial, pois, se a aliança se faz com alguém que mente ou que é mais para egoísta, por exemplo, os problemas ficarão agravados depois do casamento. Outro fator é não ser ingênuo ou otimista: convém pensar que ao casar, todos os problemas e dificuldade pioram, sim! As pessoas se acomodam e mostram mais a sua face negativa. Assim, é preciso que tudo, inclusive o sexo, esteja 100% durante o namoro porque talvez venha a piorar um pouco. Um terceiro conselho: um relacionamento não permanece encaixado e funciona bem automaticamente. Ou seja, é preciso cuidado, atenção com o outro, esforço para que as afinidades e projetos de vida continuem convergentes. Isso não é fácil e exige muita atenção sobre os próprios anseios, os do parceiro e cuidado nas conversas e negociações. Aliás, elas devem existir o tempo todo porque os pontos de vista serão divergentes em muitos aspectos e os diálogos tem que ser respeitosos para serem produtivos. G - O amor de hoje é diferente do amor de antigamente? É importante manter a individualidade? Uma certa renúncia não é inerente ao relacionamento, ou seja, não temos sempre de abrir mão de coisas em prol da relação? FG - Antigamente, as concessões eram grandes porque os casais imaginavam que tinham que fazer tudo juntos. Quase sempre havia um que concedia e o outro, o mais egoísta, que abusava da tolerância do mais generoso. Além disso, a idéia que estava em vigor era a de que ao homem cabia dirigir a vida a dois. Isso não é mais verdade: as moças representam 60% dos estudantes universitários, de modo que em breve estarão mais bem preparadas e ganhando mais que a média dos homens. A independência sexual e financeira da mulher, junto com os avanços tecnológicos de utilização individual (IPod, computador, DVD, etc) tem feito crescer a individualidade das pessoas, o que é uma ótima notícia. Assim, em vez de concessões, que por vezes tem que ocorrer, a chave de um relacionamento sereno é o respeito pelas diferenças, gostos e individualidades. Ou seja, quando se gosta da mesma coisa, se faz junto. Quando um gosta e o outro não, cada um faz o que gosta e se encontram depois. Ambos felizes. Quem faz as concessões acaba se aborrecendo internamente e não raramente arruma uma briga por algum motivo fútil. G - Como resolver interiormente a sensação de desemparo e de insegurança para deixar de depender do parceiro amoroso? FG - Nenhum de nós consegue resolver completamente a sensação de desamparo que nos acompanha desde o nascimento. Por isso mesmo gostamos de ter um parceiro amoroso. Podemos lidar com essa sensação individualmente. Um dos recursos é, por exemplo, manter-se ocupado e entretetido tanto com o trabalho como com leituras, esportes, cinema, amigos, etc. O que tem que ser claro é que o parceiro sentimental não tem que ser o remédio definitivo, único e permanente para o nosso desamparo. O nosso desamparo é problema nosso! O parceiro, quando presente, nos ajuda muito, mas não é sua obrigação nos aliviar o tempo todo das sensações íntimas dolorosas. G - Com o passar dos anos, a maioria dos casais não sente mais aquela paixão avassaladora do início, aquele êxtase. Porque isso acontece? É possível reacender esta chama e manter um relacionamento longo e feliz? FG - É possível, sim, que o amor permaneça igualmente intenso e gratificante por toda a vida. É claro que terá altos e baixos, dependendo do comportamento do parceiro e do nosso estado de alma. O que desaparece é o componente do medo que está associado à paixão: paixão = amor + medo. O medo é relacionado com o risco de ruptura, além do medo da felicidade, condição com a qual acabamos por nos acostumar. Com o casamento, os temores de ruptura diminuem muito e o medo se atenua. Aí, o essencial é não se acomodar e tratar de conservar a riqueza de conversas. A intimidade depende também de um fator essencial: não julgar o parceiro o tempo todo. Existem muitas pessoas que não sabem ouvir a não ser com a idéia de encontrar e apontar os defeitos do outro. Isso é horrível, pois acaba levando o outro a se calar, a omitir tudo aquilo que poderá ser passível de crítica. Com isso, a intimidade se prejudica e, ao longo do anos, pode vir a se romper de modo radical. G - É possível, depois de 30, 40 anos de casamento, ser uma pessoa que ainda provoque interesse no outro? Como não deixar que a rotina mate o relacionamento? Pessoas muito diferentes conseguem manter um relacionamento longo ou é preciso haver compatibilidades? FG - Já afirmei que a harmonia conjugal depende essencialmente das afinidades, principalmente as de caráter. É impossível confiar em um parceiro que mente, que é insincero. Com o tempo isso destrói o eventual encantamento e o amor desaparece. A rotina não perturba o cotidiano a não ser quando ela é muito chata! Rotinas agradáveis, compartilhadas com alegria, são uma dádiva. Não é a rotina que destrói o relacionamento, mas a falta de criatividade de modo que só sobra o cotidiano que é forçosamente repetitivo. Para que as pessoas continuem a ser interessantes para seus parceiros é preciso que elas se reciclem, renovem seu repertório, tenham interesses e se dediquem a eles. O casamento não é chato, chatas são as pessoas que não progridem, que não leem, não assistem a filmes, não acompanham as notícias, não tem nada de novo para dar. Chatas são as pessoas que acham que seus parceiros estão no mundo para entretê-las e não percebem que elas mesmas devem encontrar os meios de fazer a vida agradável. As pessoas esperam do parceiro o que deveriam buscar em si mesmas. Amor é o sentimento que temos por quem nos provoca a adorável sensação de paz e aconchego que neutraliza momentaneamente nosso desamparo. Amor não é entretenimento, não é parque de diversões. Aventuras devem acontecer juntos ou separados, em atividades profissionais, intelectuais, projetos de viagem, etc.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A Teoria do "Filho Premiado"

A Teoria do "Filho Premiado"

Reprodução e Envelhecimento: A Teoria do "Filho Premiado"

João Carlos Holland de Barcellos, Novembro/2008

“Tudo fica claro, depois que o mistério é desvendado” (A. Desconhecido)

Resumo: Após fazermos uma análise crítica de algumas das mais conhecidas teorias sobre o envelhecimento, iremos propor uma nova teoria, que explica a origem da reprodução sexuada e do envelhecimento. Nesta teoria, tanto a reprodução sexual como a senescência surgem como uma adaptação darwiniana. Um mecanismo que dribla a seleção de grupo também é proposto. Desenvolveremos então a “Equação da Morte”, que estabelece a longevidade de uma espécie como função de parâmetros de suas presas e predadores. Palavras Chaves: Envelhecimento, Sexo, Morte, Evolução, Senescência, Adaptação, Pressão Seletiva, Reprodução, Sexuada, Assexuada, Teoria do Envelhecimento, Longevidade, Relógio Biológico, Morte Programada, Equação da Morte.

1-Definições

Utilizaremos neste texto a palavra “envelhecimento” como sinônimo de “senescência”. A senescência é definida como um lento acúmulo de alterações degenerativas no organismo que o leva, inexoravelmente, à morte. Ou então como “a deterioração progressiva da quase totalidade das funções do organismo durante do tempo”. [1]

Também utilizaremos o termo “imortal”, para designarmos o organismo que não morre por envelhecimento. Isso não significa que não possa morrer por falta de alimentos, ataques de predadores, acidentes, doenças, por um ambiente hostil ou alguma outra causa externa, mas apenas que não senesce, isto é, não possua uma morte programada em seu DNA nem que suas funções vitais decaiam significativamente com o tempo levando, por isso, o organismo à morte. Como exemplo de organismos imortais, podemos citar as bactérias. Estas não envelhecem, e, portanto, neste sentido, são imortais. Da mesma forma utilizaremos a palavra “mortal” para qualificar o organismo que envelhece, isto é, que possue instruções em seu DNA para que, após certo período de tempo, faleça, ou que suas funções vitais caiam significativamente com o tempo, levando-o sempre à morte. Como exemplo, podemos citar os mamíferos, que sempre envelhecem e morrem.

2-Introdução

A causa do envelhecimento, a nível evolutivo, ainda é considerada um dos grandes mistérios da ciência e, em particular, da biologia. Várias teorias tentaram explica-lo: “O gerontólogo russo Zhores Medvedev recenseou mais de 300. Contudo um grande número entre elas não se interessa realmente às causas, mas antes a mecânica senescente.” [1]

Entretanto, apesar deste grande número de teorias, apenas algumas poucas tiveram alguma aceitação na comunidade científica. Infelizmente, nenhuma delas explicou satisfatoriamente as causas darwinianas do envelhecimento. A teoria que exporemos, e que chamei de a “Teoria do Filho Premiado”, pretende resolver este problema explicando a causa da senescência no nível neo-darwiniano, isto é, através da adaptação genética por seleção natural. Assim, defenderemos, nesta nova teoria, que o envelhecimento é uma decorrência da “morte programada”, pois seria evolutivamente vantajoso para os genes, em organismos com reprodução sexuada, se eles eliminassem os corpos que os carregam.Para entendermos o processo evolutivo envolvido no envelhecimento precisamos partir do início: A origem da vida.

3-O Início

As teorias mais modernas sobre a origem da vida [2] apontam que esta se iniciou há cerca de quatro bilhões de anos, tendo como origem uma molécula replicante. Segundo as teorias mais modernas, este replicante deveria ser algo parecido com um proto-RNA, formada ao acaso no ambiente primitivo da época, conhecido como “sopa ou caldo primordial”.

Os primeiros replicantes faziam cópias de si mesmos – clones- utilizando as moléculas que vagavam neste “caldo primordial”. Entretanto as cópias nem sempre eram perfeitas (ocorriam mutações) o que fazia com que estas cópias pudessem ter maior ou menor habilidade em fazer mais (ou menos) cópias em relação aos seus pais. As que tinham mais sucesso em sobreviver e se reproduzir, colocavam mais cópias de si mesmas do que as demais. Houve as condições necessárias para que a evolução darwiniana ocorresse: Herança, Reprodução, Variabilidade e Seleção Natural.

A “luta” pela replicação continuou sem tréguas. Em algum momento deve ter surgido um replicante mutante, que criou uma capa de proteção contra ataques de outros replicantes – a primeira célula-. Este replicante celular teve tanto sucesso com sua capa protetora que praticamente dominou a vida primitiva em seu início. No caldo primordial devem ter sobrado apenas os replicantes celulares – como as bactérias [3]-. Posteriormente, algumas bactérias mutantes “perceberam” que se elas se agrupassem em colônias teriam mais chances de sobrevivência. Estas colônias evoluiriam para os primeiros seres pluricelulares.

4-As Bactérias

As bactérias são imortais. Elas se reproduzem por fissão: A bactéria se divide em duas (dois clones idênticos), e cada um destes clones se divide em dois, e assim por diante, crescendo a uma taxa exponencial com o tempo, se não houver alguma restrição ambiental.

O importante é percebermos que a vida se iniciou imortal. Não havia um mecanismo interno de envelhecimento, A característica mais simples para se existir é, portanto, a da imortalidade.

5-Causas e Mecanismos

É importante diferenciar as causas evolutivas das causas físicas que provocam o envelhecimento (os mecanismos internos de senescência). As causas evolutivas sempre levam a algum mecanismo interno (causas físicas) que desencadeiam o processo de envelhecimento. Por exemplo, a sensação de medo pode provocar tremor, sudorese, calafrios, e podemos dizer que a causa é devido a hormônios como adrenalina e cortisol, que preparam o organismo para a luta, ou a fuga. Mas isto seria mais uma causa física do processo do medo do que sua causa evolutiva. A causa evolutiva seria a explicação do porque, ou quais foram as pressões seletivas, que propiciaram os genes a criarem este mecanismo interno. Assim, podemos dizer que a causa evolutiva do medo seria devido a uma adaptação genética de percepção de perigo: Os organismos que tinham genes que os capacitassem a perceber o perigo tinham mais chances de sobreviver do que os organismos que não apresentassem tais genes. Assim, os genes que induziram o organismo a perceberem e a reagirem ao perigo, tiveram maior sucesso evolutivo do que os desprovidos deles. Em suma: A causa evolutiva (darwiniana) do medo seria a detecção do perigo, as causas físicas seriam a liberação de hormônios específicos para preparar o corpo para a ação.

6- O Limite de Hayflick

Atualmente, o chamado “Limite de Hayflick” [4] é considerado a causa física mais importante do envelhecimento – o nosso “relógio biológico”. Dr. Leonard Hayflick, em 1961, descobriu que na espécie humana existe um número máximo de divisões celulares –cerca de 50- que cada célula somática pode se dividir. Passado este limite, a célula não se divide mais, e morre.

O mecanismo interno responsável por esta limitação está baseado nos telômeros dos cromossomos. Nos cromossomos lineares, em forma de bastão, como nos da espécie humana, existe uma terminação em cada uma das suas extremidades conhecida como telômero. A cada divisão celular estes telômeros são encurtados. Isso significa que os cromossomos das células filhas têm um telômero menor do que o das células que lhes deram origem, e, portanto, também tem uma vida útil menor, pois cromossomos sem telômeros perdem sua função, fazendo com que a célula morra [5].

7-As Células Germinativas e a Telomerase

Nem todas as células do corpo padecem do limite de Hayflick. As células germinativas, os gametas (óvulos e espermatozóides), não sofrem este processo de encurtamento do telômero, pois nestas células é produzida uma enzima – a telomerase – que tem a função de impedir a redução do telômero[6]. As células somáticas também produzem esta enzima, mas num nível insuficiente para reparar completamente o telômero. Nos gametas a produção é maior, e, portanto, eles não envelhecem. As células germinativas são, portanto, imortais. Pessoas com deficiência na produção desta enzima podem apresentar senilidade precoce, como é o caso da doença chamada progéria [28]. Esta doença é uma evidência forte da causa dos telômeros no processo do envelhecimento:

A manutenção do telômero está implicada na estabilização do cromossoma e na imortalização celular. A telomerase, que catalisa a síntese de novo do telômero, é ativada em células germinativas e em muitos cânceres.” [7]

8-Uma Boa Teoria do Envelhecimento

Uma boa teoria do envelhecimento deve fornecer, caso existam, as causas evolutivas, ou as pressões seletivas, que favoreceram o surgimento do envelhecimento. Deve responder também as seguintes questões:

a) Por que algumas espécies envelhecem e outras não? b) Por que o envelhecimento ocorre predominantemente nos seres sexuados e não nos assexuados? (seres pluricelulares, assexuados, como anêmonas e medusas, aparentemente, não envelhecem) [11]. c) Por que as células somáticas não produzem mais telomerase, como as células germinativas o fazem, de modo a também não sofrerem o envelhecimento? d) Por que algumas espécies envelhecem muito mais rapidamente que outras?

9-Principais Teorias do Envelhecimento

As teorias do envelhecimento baseadas exclusivamente em mecanismos internos, desconsiderando influências evolutivas estão, no mínimo, incompletas. Estas teorias, além de não explicarem as enormes diferenças no tempo de envelhecimento das diferentes espécies, não apontam as razões do próprio organismo não se auto-regenerar: Se a bactéria é uma célula, e ela vive indefinidamente, sem envelhecer, porque as células somáticas de um corpo também não poderiam fazer o mesmo? [9] Antes de entrarmos no âmago da nova teoria, é conveniente expormos algumas das principais teorias sobre o envelhecimento, e mostrarmos porque elas não resolvem completamente problema: a de explicar as causas evolutivas do envelhecimento. Devemos notar que as teorias que se baseiam exclusivamente em mecanismos internos estão longe de explicar o problema a nível darwiniano, pois como indicam as evidências, existe influência genética no processo, e, portanto, tais genes estiveram sujeitos à seleção natural.

9.1-A Teoria dos “Radicais Livres”

Esta teoria, de 1954 [8] [6], diz que envelhecemos por excesso de radicais livres, que são moléculas ionizadas, em geral compostos de oxigênio, produzidas e liberadas no organismo como subproduto do metabolismo celular (mitocôndrias).

Estes radicais livres seriam os responsáveis pelo envelhecimento, pois degenerariam a célula, levando-a por fim à morte. É verdade que a degeneração das células pode acelerar o envelhecimento, mas esta teoria não explica por que as células mortas pelos radicais livres não poderiam ser substituídas por outras não degeneradas como acontece normalmente na juventude, com as células somáticas mortas. Esta teoria deveria implicar que quanto maior o metabolismo de um animal, mais rapidamente ele envelhece, já que produziria mais radicais livres. Entretanto, muitos animais fazem exceção a esta regra [1]. Também seria de se esperar que esportistas envelhecessem muito mais rapidamente do que pessoas de vida sedentária, o que também nem sempre é verdade. Então podemos concluir que, embora os radicais livres possam prejudicar as células, e até contribuírem para o envelhecimento, deixa muito a desejar como uma teoria que explique o processo como um todo.

9.2-Teoria do “Bem da Espécie” (Weismann)

August Weismann (1834-1914) [10], em 1882 propôs que o envelhecimento seria devido à “morte programada” – um mecanismo codificado no DNA que leva a célula à morte-, e que teria evoluído por seleção natural para favorecer o bem da espécie, mesmo que isso tivesse um efeito negativo no “fitness” (capacidade de sobrevivência e reprodução) do organismo. Weismann pensava que removendo velhos membros da população sobrariam mais recursos para os mais jovens que, presumivelmente, deveriam ser mais adaptados ao ambiente que os seus pais, e, portanto, favoreceria a evolução da espécie como um todo [10].

Esta teoria, também conhecida como “teoria de Weismann” [1] apresenta uma falha não solucionada: Ela apela para a “seleção de grupo”, que, como veremos, não deve ser utilizada a menos que bem fundamentada.

Para entendermos porque a seleção de grupo, no caso, “a morte para o bem da espécie”, é problemática, consideremos uma população de organismos da mesma espécie constituídos de organismos mortais e de imortais (que não envelhecem), inicialmente em igual número, e em equilíbrio, de modo que o total da população tenha que se manter constante devido à quantidade limitada de recursos alimentares disponíveis. Neste cenário, se um dos organismos morre, ele pode ser substituído por um filho mortal ou imortal. A probabilidade de morrer mortais é maior, pois estes envelhecem e morrem. A probabilidade de ele ser substituído por um filho de imortal também é maior, já que pode haver vários mortais em idade avançada, debilitados e com dificuldade de procriar. Portanto, aparentemente, a população iria se tornando imortal. Mesmo que isso seja prejudicial à espécie como um todo.

Agora, vamos supor que exista uma população 100% composta por organismos mortais. Suponhamos que nasça um organismo mutante imortal – que não envelhece-, portanto, como maior “fitness”, esse organismo poderia continuar procriando e tendo filhos na época de sua vida em que os outros todos, de sua idade, já estariam mortos pela velhice. Ou seja, este organismo imortal teria, aparentemente, muito mais probabilidade de ter seus filhos substituindo os organismos que morrem do que os mortais. Portanto, sem um mecanismo que contra-argumente esta lógica, a tendência, ao longo do tempo, é que a população vá se tornando toda imortal, mesmo que isso seja para a população, como um todo, prejudicial. A aptidão do organismo, neste caso, parece sobrepujar o benefício da espécie.

Assim, sem contar com nenhum outro mecanismo que explicasse como a seleção de grupo favoreceria os mortais, frente aos imortais, a “seleção de grupo”, utilizada nesta teoria, parece contradizer os mecanismos darwinianos de aptidão, pois os mais aptos (imortais) tenderiam a se manter e proliferar, e não os mortais, e, por esta razão, esta teoria também não vingou.

9.3- Teoria da “Acumulação de Danos” (P. Medawar e J. Haldane)

Sir Peter Medawar (1915-1987), Nobel de medicina, foi um professor de zoologia e anatomia da Universidade de Londres [10]. Em 1952, Medawar e J. Haldane escreveram um artigo propondo uma teoria que explicasse o envelhecimento através da acumulação de danos no genoma. Tal acumulação de danos seria possível se tais danos aparecessem apenas tardiamente na vida do organismo [11], de modo que esses genes teriam uma baixa pressão seletiva atuando sobre eles. Por exemplo, se uma doença genética grave, provocado por uma mutação em um dado gene, aparece na puberdade, antes da maturidade sexual, este gene é fortemente selecionado a desaparecer, pois o organismo não tem tempo para chegar à maturidade sexual e ter filhos para poder passar o gene adiante. Dessa forma, quanto mais cedo os genes malignos se expressem (gene expresso=gene ativado) no organismo, menos chances eles tem de serem passados para a próxima geração, e mais raros eles são. O oposto também é verdadeiro: Quanto mais tarde um gene maligno se expressa, maiores são as chances dele permanecer na população, já que o organismo pode ter muitos filhos antes de, finalmente, o gene se expressar e matar o organismo. Assim, mutações nocivas, que se expressam tardiamente, poderiam ir se acumulando lentamente no genoma da população, e este acúmulo, segundo Medawar, seria o responsável pelo envelhecimento [10] [11].

Esta teoria tem vários pontos positivos: Explica o envelhecimento sob o ponto de vista genético; Utiliza a teoria darwiniana para explicar o modelo; Os dados empíricos parecem corroborar, ao menos parcialmente, a teoria.

Apesar disso, esta teoria tem ainda algumas falhas graves: Os organismos começaram imortais e não mortais. Assim sendo qualquer gene que diminua o “fitness“ do organismo deveria ser selecionado negativamente, mesmo que apareça tardiamente. Por exemplo: Considere uma espécie imortal (no início todas as espécies eram imortais), e surge um organismo mutante com um gene que o mata, por exemplo, aos 50 anos de idade. Este organismo não poderá ter mais filhos, pois está morto, isso não aconteceria com os outros da espécie, então seus concorrentes deixariam mais descendentes do que este mutante mortal. Então, não há razão para que este gene se propague, espalhando a mortalidade e o envelhecimento. É o mesmo argumento que refuta a hipótese de Weissman (9.2). Além disso, esta teoria não explica por que algumas espécies não envelhecem e outras sim. Não correlaciona também a relação da reprodução sexuada com o envelhecimento como parece indicar todas as evidências.

9.4- A Teoria da “Pleiotropia Antagônica” (G. Williams)

George Williams, professor da Universidade de Michigan, em 1957, formulou uma teoria na qual a senescência poderia ser explicada pelo efeito chamado “Pleiotropia antagônica”. Pleiotropia é o nome da característica que faz com que um mesmo gene possa fazer parte de vários traços distintos no mesmo organismo. A tônica desta teoria é que existem alguns alelos que podem beneficiar o organismo em relação a algum traço na sua juventude, por exemplo, uma capacidade de visão aguçada, e, por outro lado, prejudicá-lo em outro traço depois, na maturidade, por exemplo, fazê-lo adoecer de catarata [10]. Dessa forma, o gene seria benéfico (mais que o alelo normal) no início da sua vida sexual, permitindo que o organismo seja dotado de um alto “fitness” em sua juventude, podendo ter mais filhos que organismos sem essa mutação. Entretanto, após certo tempo, este gene atuaria negativamente em outro traço, prejudicando o organismo. Contudo, o gene já teria sido passado às novas gerações, pois teria sido vantajoso ao organismo no início de sua vida reprodutiva.

Esta teoria, embora seja lógica, e aparentemente consistente, ainda apresenta algumas deficiências: Não explica porque este efeito não ocorre em espécies assexuadas. Não responde o porquê de espécies muito semelhantes (como algumas espécies de aves e peixes), que teriam genes muito semelhantes, terem expectativas de vidas tão discrepantes [10]. Não esclarece porque o organismo não poderia manter o mesmo nível de atividade dos genes que o beneficiaram na juventude, na fase de alto “fitness”, quando se sobressaía frente aos demais, para mudar, repentinamente, diminuindo sua adaptabilidade. E o mais importante: a teoria não mostra que os organismos imortais, que não herdaram estes genes, e que, portanto, que não padeceriam destes sintomas na fase adulta, não poderiam compensar seu fraco desempenho da juventude com um maior vigor em sua infinita fase adulta.

9.5- Teoria do “Soma Descartável” (T. Kirkwood)

Em 1977, Thomas Kirkwood, na época um estatístico, publicou um artigo intitulado: “Teoria do Soma Descartável”. “Soma” refere-se à parte do corpo que é constituída por células somáticas, isto é, não germinativas. Segundo Kirkwood, como os organismos apresentam alta mortalidade devido a fatores externos (predadores, doenças, acidentes, fome etc.), não seria producente manter o organismo além do seu tempo de vida [13]. Desta forma a energia deveria ser utilizada para melhorar a capacidade reprodutiva e não para mantê-lo vivo indefinidamente. Ou seja, o organismo poderia ter um mecanismo interno de reparo no DNA, mas isso custaria alguma energia, que poderia ser utilizada na reprodução. Se o organismo tende a morrer de alguma causa externa então não compensaria o custo de mantê-lo vivo além do necessário [10].

Um dos problemas desta teoria é que ela não mostra quanto de energia é necessária para corrigir os problemas dos danos celulares em relação aos gastos com a reprodução, para então concluir que o gasto seria inviável. Além disso, organismos no inicio da vida têm muito mais probabilidade de morrer do que os adultos experientes, isso sem contar o tempo necessário, e o gasto de energia, para se chegar à puberdade para o inicio da vida reprodutiva. Assim, parece haver um contra-senso em descartar um adulto experiente, e já em idade reprodutiva, para substituí-lo por mais jovens e inexperientes que ainda vão perder tempo e energia antes de iniciar sua vida reprodutiva. Mesmo que um adulto custe mais caro em termos de energia, se ele tivesse um alto “fitness”, pela sua experiência e imortalidade, ele poderia espalhar seus genes imortais por muito mais tempo, mesmo que o mecanismo de reparo do seu DNA consumisse energia.

9.6- As Teorias da “Evolutividade”

Em seu artigo “The Evolution of Aging” [10], Theodore C. Goldsmith, um engenheiro da NASA, faz uma excelente explanação das principais teorias do envelhecimento, e coloca vários cientistas e estudiosos, (por ex. J. Mitteldorf, J. Travis, J. Bowles), como defensores das assim chamadas “Teorias da Evolutividade” (“Evolvability Theories”).

Estas teorias são baseadas na teoria do “Bem da Espécie” de Weismann onde o “bem” é definido como o incremento da taxa de evolutiva da espécie. Assim, seria bom para a espécie que os seus membros envelhecessem e morressem, pois o envelhecimento permitiria que novas gerações, em princípio, mais adaptadas e mais evoluídas que as predecessoras, fossem substituindo às antigas numa taxa muito mais elevada do que uma população imortal, isto é, num ritmo maior que a de uma espécie que não envelhece. Dessa forma, o envelhecimento dos organismos faria aumentar a “taxa da evolução” da espécie que envelhece como um todo, beneficiando o grupo.

Isso, de fato, é bom para a espécie. Entretanto, o problema destas teorias que beneficiam o grupo, a custas do prejuízo individual (seleção de grupo), é que elas, como vimos no item 9.2, não costumam apresentar um mecanismo “neodarwiniano” convincente (baseado no “fitness” do gene) nem darwiniano (baseado no “fitness” do organismo), que dêem cabo do paradoxo da “seleção de grupo”. Segundo a teoria de Darwin os organismos mais adaptados, com maiores “fitness”, tenderiam a sobreviver mais e deixar mais descendentes do que os menos adaptados. Portanto, uma característica que, em princípio, seria desvantajosa ao individuo, diminuindo seu “fitness”, mesmo que fosse boa ao grupo como um todo, não deveria se propagar pela espécie. Ou seja, o problema da seleção de grupo, quando esta se dá a custas do organismo individual, precisa, para ser válida, vir acompanhada de um mecanismo lógico que consiga explicar o paradoxo da perda do “fitness”. Infelizmente, não é o caso das ‘teorias da Evolutividade’ apontadas por Goldsmith.

9.7- Teoria da “Causa Sexual” (W. Clark)

Em seu livro “Sexo e a Origem da Morte”, William R. Clark, catedrático do departamento de biologia molecular da Universidade da Califórnia, aperfeiçoa a teoria do “Soma Descartável” (9.5) e o coloca sob uma ótica neodarwiniana – baseada em genes- [14]. Nesta nova roupagem do “Soma Descartável”, Clark mostra que o envelhecimento se iniciou logo cedo na face da Terra, com nossos primeiros ancestrais, os chamados proctotístas, organismos unicelulares dotados de um núcleo com revestimento protetor que armazena DNA linear com as extremidades revestidas por telômeros. Clark não explica por que foi vantajoso aos protistas mudarem seu cromossomo celular circular para cromossomos lineares. De qualquer modo, também houve incorporação de genes de bactérias parasitas a estes proctotístas – e posterior relação simbiótica-, como acontece com as mitocôndrias. Isso permitiu aos proctotístas crescerem e a desenvolverem novas estruturas especializadas como, por exemplo, de proteção (cito esqueletos), de alimentação (micro túbulos) [17], ou mesmo a capacidade de viverem em colônias, cuja especialização levaria alguns, posteriormente, a se transformarem em organismos pluricelulares.

Com o advento da reprodução sexuada, que traz inúmeros benefícios aos genes e à espécie (como veremos no próximo tópico), ocorre nestes proctotístas, pela primeira vez, a segregação do DNA em núcleos distintos: O micronúcleo, com o DNA germinativo, usado apenas no momento da reprodução, e o macronúcleo, com o DNA somático, utilizado na manutenção diária da célula.

Segundo Clark, o DNA somático sofre mais degradação do que o DNA germinativo, e como este último é o que vai para a próxima geração, não haveria necessidade de reparar o DNA somático, que pode acumular mutações prejudiciais, e, portanto, deveria ser destruído. Assim, durante a reprodução sexuada, teríamos o seguinte processo:

... e, em seguida, o antigo macronúcleo, isolado numa extremidade da célula, começa a se degenerar e morre... O que os ciliados protistas têm a ver com os seres humanos?... Muita coisa porque é somente analisando a reprodução sexuada em protoctistas como o paramécio que podemos ver pela primeira vez a geração de DNA que não é transmitida à geração seguinte. Esta segregação de DNA em dois compartimentos não acontece em bactérias nem em outros organismos que se reproduzem assexuadamente. E o que é feito do excesso de DNA que não é usado na reprodução? É destruído. Na verdade pode-se muito bem afirmar que é na morte programada dos macronúcleos dos eucariontes primitivos, como o paramécio, que nossa própria morte corporal é prenunciada. ”[18]

Clark explica que o motivo da morte programada dos macronúcleos (que corresponderia às células somáticas do corpo) seria devido à necessidade de destruí-los, pois estariam provavelmente muito desgastados, e que depois da reprodução não seriam mais necessários.

Mas esta conclusão embute dois erros lógicos: Primeiro, porque não haveria necessidade de programar a morte celular já que esta morte iria acontecer por si própria, seja com o acúmulo de mutações, seja com o desgaste da própria célula. Seria como um engenheiro projetar uma pesada e cara bomba num robô marciano para que ela explodisse quando a bateria do robô terminasse e ele ficasse inoperante. Se o robô vai deixar de funcionar por si mesmo, seria ilógico gastar tempo e material com um dispositivo que o fizesse explodir depois que não tivesse mais utilidade. Da mesma forma, Clark não mostra a necessidade evolutiva, ou qualquer outra causa da natureza, programar a morte das células somáticas se elas levam o organismo, de qualquer maneira, à morte. Segundo, ele não mostrou as razões que inviabilizariam o reparo do DNA somático, já que isso pode ser feito uma vez que, como as bactérias, as células somáticas também se dividem por fissão. Se as bactérias, e as células germinativas, são imortais, as células somáticas também poderiam ser. Se as bactérias podem se reproduzir indefinidamente, os proctotistas, em princípio, também poderiam fazê-lo.

10- A Teoria do “Filho Premiado” (Jocax)

Para entendermos a teoria do “Filho Premiado” vamos, primeiramente, entender as vantagens (+), e desvantagens (-) da Reprodução Sexuada e Assexuada. A Tabela-I, abaixo, resume as principais diferenças:

Reprodução Sexuada

Reprodução Assexuada

(+) Maior Variabilidade Genética. (há mistura de genes dos genitores)

(-) Menor Variabilidade Genética. (os descendentes são clones)

(+) Elimina mutações malévolas da espécie mais facilmente. (Organismos que herdam dupla mutação malévola tendem a ser eliminados mais rapidamente).

(-) Não elimina mutações malévolas facilmente.

(+) Espalha mutações benéficas mais rapidamente através dos machos. (Um único macho, com alto “fitness”, bem adaptado, pode inseminar várias fêmeas).

(-) Não espalha mutações benéficas a todos. (Cada célula gera sua própria linhagem).

(+) Seleção sexual favorece encontro de características adaptativas e promove a extinção das menos adaptativas. (As fêmeas escolhem os ‘melhores’ machos)

(-) Não existe seleção sexual.

(-) Maior dificuldade na reprodução, pois há necessidade de encontrar parceiro (a) para isso. (Nem sempre existe parceiro sexual à disposição)

(+) Mais facilidade em se reproduzir, pois não há necessidade de busca de parceiro (a)s

(-) Maior gasto com energia para a reprodução. (A energia para gerar um macho é grande, e sua função é apenas transportar gametas para que as fêmeas gerem os novos organismos).

(+) Menos gasto com energia para a reprodução.

(-) Cada filho leva apenas metade dos cromossomos de um genitor. (A meiose segrega os cromossomos dos pais, e a junta nos filhos com a metade de cada genitor).

(+) Cada filho leva todos os cromossomos do genitor. Uma eficácia de 100% na transmissão.

(*+*) Um filho pode herdar duas ou mais mutações benéficas de cada um dos seus pais e tornar-se um ‘super-organismo’. (O filho pode ser premiado com duas ou mais mutações benéficas de cada um de seus pais).

(-) Uma dupla mutação benéfica depende diretamente da quantidade da prole e do tempo para que isso ocorra. (Se uma mutação benéfica é rara, uma dupla mutação benéfica é ainda mais rara).

Tabela I – Vantagens e desvantagens da reprodução sexuada/assexuada

Vamos também resumir as vantagens e desvantagens entre organismos mortais (que envelhecem e morrem) e os Imortais (que não morrem por envelhecimento). As comparações precisam ser feitas dentro de uma população em relativo equilíbrio, isto é, de tamanho relativamente constante, estável no tempo. Nesta tabela II a mortalidade não está relacionada ao tipo de reprodução.

Organismos Mortais (Envelhecem)

Organismos Imortais (Não envelhecem)

(+) Maior taxa de mutação benéfica. (Uma taxa de morte maior permite que mais nascimentos ocorram. Cada nascimento novo pode carregar uma nova mutação)

(-) Menor taxa de mutação benéfica. (Uma menor taxa na mortalidade impede que nascimentos novos sobrevivam).

(-) Maior taxa de mutações maléficas. (idem)

(+) Menor taxa de mutações maléficas.

(*+*) Maior taxa evolutiva da espécie. (O conjunto populacional é substituído mais rapidamente por novas gerações).

(-) Menor taxa evolutiva da espécie. (Organismos antigos tendem a permanecerem vivos e consumir recursos que poderiam servir aos novos).

Tabela II – Vantagens e desvantagens da imortalidade

10.1- Introdução

A teoria do “Filho Premiado” está baseada em duas teorias do envelhecimento: A teoria do “Bem da Espécie” (cap. 9.2) e a teoria da “Evolutividade” (9.6). Entretanto, diferentemente destas, ao invés de utilizarmos o darwinismo ortodoxo com a seleção atuando sobre o organismo individual, utilizaremos o neodarwinismo, com a seleção natural agindo sobre os genes, e, a partir daí, romperemos a barreira da seleção de grupo.

Na maioria dos casos não há conflitos entre o darwinismo ortodoxo, centrado no “fitness” do organismo individual e o neodarwinismo, baseado nos genes. Em geral o que é vantajoso para o organismo individual também o é para os genes que o compõe e vice-versa. Dessa forma, as pressões seletivas que atuam no organismo individual aplicam-se também aos seus genes. Por exemplo, se um organismo apresenta uma grande adaptabilidade (“fitness” =capacidade de sobrevivência e reprodução) ao seu meio, então é esperado que seus genes tenham suas freqüências aumentadas no “pool genético” da espécie na geração seguinte. Entretanto, nem sempre o organismo e os seus genes estão em plena concordância. Existem casos, por exemplo, em que a sobrevivência do organismo entra em conflito com a sobrevivência de seus genes.

10.2- Exemplos de conflitos

Para exemplificar alguns conflitos entre o organismo e seus genes, vejamos alguns casos hipotéticos:

10.2.1- Conflitos que favoreceriam o indivíduo em detrimento dos genes:

1-O Infanticida: Um organismo mutante que costuma se alimentar de sua cria. Ele pode sobreviver e se procriar mais que outros organismos que não apresentam essa mutação, mas seus genes não serão beneficiados. Por esta razão é muito raro,caso exista, este hábito. Pois se alimentando de sua própria prole, tenderia a fazer diminuir a freqüência de seus genes do pool genético. Claro que esta prática poderia ser benéfica aos genes, e ao organismo, se a situação que este se encontra é de absoluta falta de alimentação, o que certamente também inviabilizaria a sobrevivência da prole. Neste caso particular, seria vantajoso aos genes que o organismo sobrevivesse mesmo que se alimentando de sua cria.

2-O Canibal: O organismo que tem por hábito caçar e comer, indistintamente, tanto organismos da própria espécie, como de outras. Ele pode sobreviver e se reproduzir com maior eficácia do que os organismos que se alimentam exclusivamente de espécies distintas da sua. Entretanto, tal prática tende a prejudicar seus genes, pois, com este hábito, ele estaria a destruir seus próprios genes, em situações que não houvesse necessidade disso.

3-A Mãe Covarde: Uma mãe que não apresente o “instinto materno”, e não arrisque sua integridade física pela de sua prole, mesmo que a probabilidade de sofrer dano seja muito baixa. Neste caso ela também terá seus genes reduzidos no pool genético da população em relação às que protegem sua cria, embora tal prática seja favorável à sua própria sobrevivência e reprodução.

10.2.2- Conflitos que favoreceriam os genes em detrimento do organismo

1-A Mãe Altruísta: A Mãe que arrisca a sua vida para defender sua prole. Isso acontece na natureza quando a mãe, instintivamente, estima que arriscando sua vida, poderia fazer sobreviver sua prole. Esse instinto pode favorecer seus genes mesmo que o risco à sua vida individual seja alto, desde que a probabilidade de salvar a cria seja igualmente alta.

2-Suicídio sexual: Em algumas espécies, como a do louva-deus, e a de algumas aranhas, os machos deixam-se ser devorados pela fêmea em troca de uma cópula bem sucedida. A fecundação pode resultar em centenas de filhotes, e assim ser vantajosa para os genes, mesmo à custa da vida do organismo-pai.

Estes exemplos servem para entender o contraste entre o darwinismo ortodoxo – centrado no organismo individual – e o neodarwinismo, centrado nos genes. Os exemplos que favorecem os genes em detrimento do organismo individual são reais, acontecem com freqüência na natureza, ao passo que os exemplos que prejudicam os genes, não. O neodarwinismo, atualmente, é a corrente mais aceita na biologia, e os exemplos acima são facilmente explicados tomando o gene, e não o organismo individual (nem mesmo a espécie), como a peça central do jogo evolutivo.

10.3- “Fitness do gene”

Poderíamos então criar o conceito de “fitness do gene” (ou “fitness” de um subgrupo de genes), que seria a adaptabilidade ou grau de adequação do gene, em contraposição ao “fitness” do organismo. O “fitness do gene” pode ser definido como a capacidade que o gene confere ao fenótipo em aumentar sua própria freqüência no “pool genético” da população.

Nos três primeiros casos do exemplo anterior (10.2.1) podemos ver que haveria redução no “fitness do gene” ou do subgrupo de genes que induzem o organismo a atacar ou a prejudicar organismos que tendem a compartilhar com ele grande quantidade de genes. Por outro lado, haveria aumento no "fitness do gene", nos casos em que os genes são beneficiados, mesmo com o risco da sobrevivência do organismo individual (Exemplos 10.2.2). Então podemos concluir que as ações, ou predisposições que prejudiquem o “fitness do gene”, devam, caso existam, serem muito raras, e por esta razão, os exemplos acima (10.2.1) não acontecem na natureza, ao passo que o oposto deve ser verdadeiro: ações ou predisposições que aumentem o “fitness do gene”, mesmo que isso prejudique o organismo individual, devem ser naturais.

10.4- “Altruísmo Parental”

O chamado “Altruísmo Parental” é o conjunto de predisposições (genéticas) que levam o organismo individual a auxiliar outros de sua espécie mesmo que isso possa prejudicar a si próprio. Quanto maior o grau de parentesco, maior tende a ser o grau de altruísmo despendido ao outro. O exemplo mais familiar é o da mãe que arrisca sua integridade física, ou mesmo sua vida, e enfrenta um predador perigoso para defender sua ninhada. Tal prática pode ser benéfica aos seus genes, que estão em seus filhos, mesmo que isso possa prejudicá-la como organismo individual. O benefício conferido aos genes, em relação ao organismo individual, justificaria evolutivamente o altruísmo parental.

10.5- “Seleção de Grupo”

A “seleção de grupo” pode ser definida como ações, práticas, predisposições instintivas, ou traços fenotípicos que beneficiam o grupo como um todo (a população ou a espécie) em detrimento do organismo individual. Em termos do darwinismo clássico, centrado no organismo individual, este conceito é quase impossível de ser aceito, pois fere os princípios da seleção natural clássica que confere maior adaptabilidade ao organismo com maior “fitness”. Por exemplo, um leão que ao abater sua caça, ao invés de comê-la, dividisse a carne com outros do bando, estaria fazendo um benefício ao grupo, mas poderia ficar muito prejudicado, com poucas possibilidades de sobrevivência e reprodução, a menos que todos os leões também fizessem isso, caso contrário tal prática lhe seria prejudicial. Entretanto, este comportamento altruísta só poderia prosperar se o ‘bando’ em que ele dividisse o alimento, fosse constituído por sua própria família, onde possui alto compartilhamento genético. Caso contrário, esta prática também não seria explicável.

Robert Wright, em sua clássica obra "O Animal Moral", escreveu sobre a seleção de grupo (p.156) [29]:

"Em sua abordagem basicamente sólida da psicologia evolucionista, Darwin sucumbiu à tentação conhecida por selecionismo grupal. Consideremos sua explicação básica para a evolução do senso moral. Em 'The descent of man' ele escreveu "um progresso no padrão de moralidade e um aumento no número de homens talentosos certamente darão a uma tribo uma enorme vantagem sobre outra. Não resta dúvida de que uma tribo em que muitos membros possuírem patriotismo, fidelidade, obediência, coragem e solidariedade em alto grau, estivessem sempre dispostos a se ajudar mutuamente e a se sacrificar pelo bem comum, sairia vitoriosa no confronto com a maioria da outras; e isto seria seleção natural."

Continua Wright :

"Sim, seria seleção natural, se isto realmente acontecesse. Mas, embora não seja impossível, quanto mais pensamos na hipótese mais improvável ela nos parece. O próprio Darwin percebera o principal empecilho apenas poucas páginas antes :"É extremamente duvidoso que os filhos de pais mais solidários e benevolentes, ou mais fiéis aos seus camaradas, fossem criados em maior número do que os descendentes de pais egoístas e traiçoeiros em uma mesma tribo." Muito ao contrário, os homens mais corajosos e mais dispostos ao sacrifício "em média pereceriam em maior número do que os demais". Um homem nobre "muitas vezes sequer deixaria filhos para herdarem sua natureza nobre". Exatamente. Portanto, mesmo que uma tribo cheio de gente generosa prevalecesse sobre uma tribo cheia de gente egoísta, é difícil imaginar como uma tribo se encheria de gente generosa, para começar....Portanto, talvez não exista maneira de os impulsos de generosidade de base biológica se impregnarem em um grupo. Mesmo que alguém por meios mágicos interviesse e implatasse genes 'solidários' em 90% da população, eles seriam constantemente vencidos por genes rivais menos enobrecedores....."

Mais adiante escreve Wright :

"...é difícil imaginar a seleção grupal disseminar alguma característica que a seleção individual não favorecesse por conta própria; é difícil imaginar a seleção natural resolver um conflito direto entre o bem-estar do grupo e o bem-estar individual em favor do grupo. Certamente podemos sonhar cenários - com determinadas taxas de migração entre grupos e determinadas taxas de extinção por grupos - em que a seleção grupal realmente desempenhou um papel importante na evolução humana. Contudo, os cenários dos selecionistas grupais tendem a ser um tanto complicados. De fato, George Williams achou-os de uma maneira geral tão incômodos que propôs em 'Adaptation and natural selection' uma tendenciosidade oficial contra eles :"Não se deve postular adaptações de um nível mais elevado do que exigem os fatos" Em outras palavras: primeiro procurem muito bem uma maneira pela qual os genes subjacentes a uma característica possam ser favorecidos em uma competição quotidiana, cabeça contra cabeça. Somente após esgotar todos os seus esforços recorra à competição entre populações distintas e, mesmo assim, com grande cautela. Esta regra tornou-se o credo oficioso do novo paradigma...."

Assim, a seleção de grupo, devido a um traço genético, só pode ser considerada uma explicação neodarwiniana válida, se houver um mecanismo lógico que comprove um benefício maior ao "fitness do gene" mesmo que prejudique o "fitness do organismo" no qual este gene estaria .

10.6- A Reprodução Sexuada

A reprodução sexuada pode ser considerada uma forma de seleção de grupo. Pois tende a prejudicar o organismo individual ao mesmo tempo em que confere benefício ao grupo como um todo (Tabela-I).

Mas por que a seleção sexual “prejudicaria” o indivíduo? Por muitas razões: O organismo precisa procurar, se arriscar, e pode até não achar, parceiros para se procriar. Muitas vezes precisa lutar ferozmente contra outros machos pela conquista da fêmea. Na reprodução assexuada isso não acontece. O organismo também precisa gastar mais energia para isso, na reprodução assexuada isso não é necessário. Os genes geram machos, que não engravidam, sua única função biológica seria carregar o material germinativo para as fêmeas, um desperdício de energia. Além disso, o organismo só transfere metade de seus cromossomos a cada filho, na reprodução assexuada ele transfere 100% dos genes, o dobro. Então, porque a reprodução sexuada existe? Que mecanismo faria compensar o “malefício” individual?

William Donald Hamilton, biólogo e membro da Royal Society de Londres, criou uma teoria que ficou conhecida como a “Teoria da Rainha Vermelha”. Nesta teoria, Hamilton pretende explicar a necessidade da reprodução sexuada como uma forma dos organismos pluricelulares se defenderem das infecções bacterianas [19], [22]. Assim, como a taxa de crescimento das bactérias, e, portanto também de mutações, é mais rápida que dos animais pluricelulares, estes últimos precisariam conseguir uma variabilidade mais rápida para se protegerem destas mutações bacterianas. E, uma maneira de conseguir isso, seria através da reprodução sexuada, na qual a variabilidade genética poderia contrabalancear as rápidas mutações bacterianas.

Entretanto, sabemos que a imensa maioria das mutações ou são inócuas, ou malévolas. As mutações benéficas são muito mais raras. Assim sendo, a mistura de genes pela reprodução sexuada deveria, portanto, proporcionar mais organismos menos adaptados do que organismos mais adaptados, mais organismos com menor resistência às bactérias do que com mais resistência a elas. Além disso, assim como a teoria do “Bem da Espécie”, de Weissman, a teoria de Hamilton não mostra um mecanismo que responda como esta seleção de grupo poderia acontecer em termos de benefício ao gene: como, por exemplo, um “gene da sexualidade” poderia dar-se melhor que um “gene da assexualidade”?

Para responder a estas questões e também à do envelhecimento que, como veremos, estão inter-relacionadas, vamos ao nosso próximo tópico.

10.7- A Teoria do Filho Premiado

Uma resposta, que pode ser a chave para estas questões, seria o que eu chamei de a “Teoria do Filho Premiado”: A reprodução sexuada permite unir duas ou mais mutações benéficas, de dois organismos distintos, num único organismo, produzindo um “super-organismo” de alto “fitness”, sem que haja necessidade de se esperar um enorme tempo, como no caso da reprodução assexuada.

10.7.1- Na Reprodução Sexuada

A reprodução assexuada não permite uma dupla mutação benéfica num mesmo organismo sem uma boa dose de tempo ou de sorte! Vejamos, por exemplo, como é difícil às bactérias, conseguirem sobreviver a dois tipos de antibióticos, administrados simultaneamente, por não possuírem reprodução sexuada:

"...Comparado a outras bactérias, o H. pylori é um microrganismo hiper-mutável. Sua frequência de mutação é dependente do marcador considerado e varia muito entre as diversas linhagens bacterianas. Com referência à rifampicina, por exemplo, encontraram-se taxas de mutação elevadíssimas em algumas estirpes, 3x10-5, e em outras, taxas muito mais baixas, 4x10-8. Por outra parte, em relação à eritromicina a freqüência de mutação é menor, oscilando entre 1x10-7 e 5x10-9. Quanto maior for a população bacteriana no local da infecção, maior é a chance de ocorrerem mutações de resistência, eventualmente selecionáveis durante a antibioticoterapia. Considerando a média das taxas de mutação do exemplo acima, para que fossem encontradas bactérias resistentes a duas drogas seria necessária uma densidade populacional em torno de 1x1014; o que é impossível. Isso evidencia a importância das associações antibióticas..." [20]

Se estas bactérias possuíssem reprodução sexuada, uma bactéria resistente ao primeiro antibiótico poderia cruzar com outra, resistente ao segundo antibiótico, produzindo uma superbactéria resistente a ambos, que então se proliferaria. A idéia que está por trás da “Teoria do Filho Premiado” é que não importa tanto aos genes a quantidade de sobreviventes na próxima geração quanto importa sua capacidade de sobrevivência no longo prazo. Deve valer à pena aos genes sacrificar a facilidade da reprodução assexuada, pela sexuada, mais complexa e difícil, se isso resultar numa maior capacidade de perpetuação aos genes. G. Miller retrata bem esse ponto de vista, em seu livro “A Mente Seletiva”, quando se refere à sexualidade como forma de descartar mutações, no caso, as mutações prejudiciais:

“...Para evitar que as mutações acumulem-se ao longo do tempo, a reprodução sexual assume alguns riscos. ... A maioria dos filhos herdará quase o mesmo número de mutações dos pais. Contudo, alguns podem ter sorte: Eles podem herdar um número abaixo da média de mutações do pais e um número abaixo da média também da mãe. Eles terão genes muito melhores que a média, e devem sobreviver e se reproduzir muito bem. Seus genes livres de mutações serão difundidos pelas gerações futuras. Outros filhos podem ter muito azar: eles podem herdar uma carga de mutações acima da média de mutações de ambos os pais e podem não se desenvolver absolutamente, ou podem morrer na infância. Quando morrem, levam um grande número de mutações consigo, para o esquecimento evolutivo. Este efeito é extremamente importante. Dotando a próxima geração com número desiguais de mutações, a reprodução sexual garante que pelo menos alguns dos filhos terão genes muito bons.....Como a evolução a longo prazo é uma competição em que o vencedor leva tudo, é mais importante produzir alguns filhos que terão uma chance de se saírem bem do que um número maior de filhos medíocres...” [21] A minha crítica sobre a sexualidade existir para eliminar mutações malévolas também se aplica aqui: Mutações malévolas são eliminadas pela própria natureza. Não há necessidade da sexualidade para isso. Da mesma forma que existem bactérias sem mutações malévolas, também pode existir filhos de organismos de reprodução sexuada sem elas. Da mesma forma que as mutações malévolas prejudicam as bactérias que as portam, também podem prejudicar os organismos de reprodução sexuada que os portam reduzindo seu “fitness” e dificultando a sobrevivência do gene mutante no longo prazo.

A função dos machos, na reprodução sexuada, seria a de possibilitar que mutações benéficas sejam disseminadas pela população num ritmo muito maior do que na reprodução assexuada.

Qual seria o mecanismo que possibilitaria a reprodução sexuada?

Para respondermos a isso, vamos supor que exista, numa mesma espécie, um alelo, um gene, que induza à reprodução sexual, por exemplo, jogando gametas no seu ambiente aquático que, ao se juntarem formariam novos organismos. E existe também o alelo assexuado, que induz à reprodução assexuada. Temos então dois alelos (sexuado e assexuado), competindo na mesma espécie para sobreviver. Existem mutações que acontecem nos dois subgrupos. Um filho mutante assexuado tem as mesmas chances de receber uma mutação que a de um filho sexuado. Se a mutação é boa, ou má, isso vai beneficiar, ou prejudicar, a ambos da mesma forma. Mas suponha que este filho mutante gere gametas que irão encontrar outro gameta mutante com outra mutação benéfica.

Temos então um super organismo, um mutante com uma dupla mutação benéfica, um ser de altíssimo “fitness”, que faria com que este alelo sexual tivesse muito mais probabilidade de sobrevivência e reprodução que seu competidor assexuado. Tal fato poderia, no longo prazo, fazê-lo se fixar na espécie.

10.7.2- No Envelhecimento

Também podemos utilizar a teoria do “Filho Premiado” para explicarmos o envelhecimento. Para entendermos o processo vamos criar uma história hipotética e bastante bizarra: Suponha que um determinado governo desse um prêmio de um milhão de dólares à família de quem tivesse um filho que se suicidasse. Mas, de modo a não estimular a prática, o prêmio não seria dado logo após o suicídio, e nem a família saberia o motivo de ter ganhado o dinheiro. Assim, se o suicídio tivesse alguma origem genética, estes genes poderiam estar em algum outro membro da mesma família (os irmãos compartilham 50% dos cromossomos), e assim o valor concedido acabaria por favorecer todos os genes desta família, inclusive, e principalmente, os genes que causaram o suicídio.

Mas o que podemos depreender da bizarra história acima?

Que um gene que prejudique o “fitness” do organismo, mesmo que tal gene possa levá-lo à morte, poderá prosperar na população, se este traço causar um benefício suficientemente grande ao grupo no qual este organismo compartilha este gene, isto é, beneficiando suas cópias em outros corpos. Este é o caso do suicídio do louva-deus e de algumas espécies de aranhas. Vimos isto quando estudamos alguns conflitos entre o organismo individual e seus genes no tópico 10.2.2 acima.

Num ambiente razoavelmente estável a taxa de nascimento de uma espécie deve corresponder, na média, à sua taxa de mortalidade. Se não fosse assim, isto é, se a taxa de nascimento fosse maior que a de mortalidade a espécie cresceria até que não houvesse mais recursos naturais para alimentá-la. Se, por outro lado, a taxa de mortalidade fosse sempre maior que a de nascimento, então a espécie se extinguiria [10]. Então, vamos analisar o envelhecimento na hipótese que as espécies estão em um relativo grau de equilíbrio, a espécie poderia crescer no máximo até o limite dos recursos alimentares de seu habitat, que é a situação normal, para isto:

Taxa de Nascimento = Taxa de Morte

Assim, dentro desta condição de equilíbrio, se a espécie é imortal, isto é, se não há uma morte programada em seu DNA (não há envelhecimento), os únicos nascimentos que poderiam sobreviver, e chegar à maturidade, são os que iriam ocupar a “vaga” dos indivíduos que morressem por morte acidental como, por exemplo, brigas, acidentes, predadores, doenças etc.

Vamos agora supor uma situação hipotética limite, onde os organismos adultos de uma espécie que não envelhece, também não morrem de outras causas (além da inanição). Neste caso, todos os possíveis nascimentos desta espécie morreriam de fome antes de atingirem a maturidade, pois não haveria recursos alimentares para os nascituros. Desta forma também não haveria evolução, uma vez que não poderiam nascer organismos mutantes, que são a matéria prima da evolução. Neste caso limite, a espécie estaria parada no tempo, sem poder evoluir. E uma espécie que não evolui é uma espécie fadada a extinção já que não pode se adaptar às mudanças ambientais e nem à competição com outras espécies, e também em relação às bactérias, que causam doenças, e que tem uma taxa de mutações alta já que se reproduzem também rapidamente (teoria da Rainha Vermelha).

Concluímos então, que uma espécie em que não acontecem mortes de seus adultos acaba se extinguindo. Entretanto, como vimos, ainda podem ocorrer mortes acidentais, e isso permitiria que nascimentos, e, portanto, possíveis mutações benéficas, chegassem à maturidade e fossem transmitidas ao pool genético da espécie. Contudo, mutações são raras, e mutações benéficas muito mais raras. Por esta razão, a taxa de mortalidade acidental poderia não ser suficiente alta para que a quantidade de mutações benéficas necessárias à adaptação da espécie fosse alcançada.

Se aparecesse um gene mutante da morte (ou grupo de genes) que matasse o organismo depois que este passasse de sua fase reprodutiva, isto é, que desse tempo suficiente ao organismo para que este passasse este gene à próxima geração, este “gene da morte” poderia ser beneficiado pelo aumento que ele mesmo provocou na taxa de morte.

Temos então um caso de seleção de grupo: O “gene do envelhecimento” seria benéfico ao grupo, por permitir aumentar o número de ‘bons’ mutantes, e, assim, a taxa evolutiva da espécie, beneficiando-a. Contudo, prejudicaria o organismo individual ao matá-lo, diminuindo seu “fitness”. Para que isso seja possível, precisa haver um mecanismo que sobrepuje a perda do “fitness” do organismo individual, e, em contra partida, aumente o “fitness do gene”. E é isso que, explicaremos a seguir:

Quando o “gene do envelhecimento” mata o organismo (que já teve seus filhos) ele cria uma “vaga” (desaloca o espaço ocupado e os recursos alimentares que utilizava) no grupo local para que algum infante, ou nascituro possa chegar à maturidade sexual. É importante observar que os recursos que este organismo ocupava estão, em geral, geograficamente mais perto dos organismos que compartilhavam seus genes, como seus filhos e parentes.

Além disso, cria-se uma possibilidade de que o organismo que agora pode chegar à maturidade, seja um “super organismo”, ou seja, com a vaga aberta por esta morte, cria-se a possibilidade de que o novo organismo herde duas ou mais mutações benéficas de seus pais desde que a reprodução desta espécie seja sexuada!

Ou seja, temos um caso análogo ao do suicida de nosso exemplo bizarro anterior (ou do louva-deus), no qual a família recebia um milhão de dólares se algum filho se suicidava. No nosso caso, quem morre é um parente próximo, e quem ganha o grande prêmio é a família que é contemplada com um “filho premiado” (que possua duas ou mais mutações benéficas). Como a morte acontece no grupo local, existe uma probabilidade maior de que esta vaga seja ocupada por um parente do organismo que morreu do que a de um estranho longínquo, isto é, o gene que causou a morte por envelhecimento tem mais probabilidade de ocupar a vaga, por estar geograficamente perto dos recursos deixados, do que um alelo longínquo, que não compartilhe muitos genes com o organismo morto.

Se o “super organismo” que ocupou a vaga e chegou à maturidade sexual tiver um “fitness” suficientemente alto, ele irá propagar seus genes de forma muito mais vigorosa do que um organismo normal. Dessa forma, basta que o “gene do envelhecimento” consiga, uma única vez, pegar carona em um “filho-premiado” para se espalhar rapidamente pela população, beneficiando a taxa de evolução do grupo e, agora também, a do próprio “gene do envelhecimento”.

Vamos agora supor que aconteça o oposto, uma população inicialmente formada por mortais, e nasça um organismo mutante imortal (que não envelhece) que também é um “super organismo”. Neste caso, como no anterior, o gene da imortalidade deve espalhar-se rapidamente pelo ambiente local em função do “fitness” conferido pela dupla mutação benévola. E, nessa localidade, essa região onde este imortal habita, tende a se tornar também uma região de imortais, e como conseqüência, com uma baixa taxa evolutiva. Isso significa que esta região de imortais terá baixa adaptabilidade, e poderá ser “convertida” rapidamente a partir de algum organismo de maior adaptabilidade, qual seja: a de um grupo de organismos mortais. Assim, podemos concluir que o grupo dos organismos imortais, por possuir uma taxa evolutiva mais baixa, é instável, e sempre tenderão a serem substituídos por organismos mortais, de maior adaptabilidade evolutiva.

É interessante observar que a própria taxa de envelhecimento (o tempo do relógio biológico), a que está correlacionada à taxa evolutiva da espécie, deve também sofrer uma pressão seletiva de ajuste. O envelhecimento deve estar numa cadência tal que, se matar o organismo cedo demais, prejudica os genes impedindo-o de ter um número adequado de descendentes. Se deixar o organismo viver muito, impede que outros possam nascer e sobreviver. Deve haver, portanto, um nível ótimo de envelhecimento, que permita aos organismos terem um número ótimo de filhos e, ao mesmo tempo, permitir que a espécie evolua. Este nível de adequação será dado pela "equação da morte", que veremos a seguir.

Resumindo:

- Num ambiente equilibrado e relativamente estável, o envelhecimento é benéfico à espécie porque aumenta a taxa de morte, e com isso a taxa evolutiva da espécie, sua adaptabilidade ao ambiente, às presas e aos seus predadores..

- O Envelhecimento, como uma adaptação evolutiva, só poderia ocorrer em espécies com reprodução sexuada, que possibilita uma maior probabilidade para a ocorrência de “super organismos” (organismos portadores de duas ou mais mutações benéficas), que podem espalhar a mutação com muito mais rapidez e eficácia.

- O “gene do envelhecimento” precisa pegar carona uma única vez em um “filho-premiado” para que se espalhe para o grupo e beneficie a espécie e o próprio gene.

- Um subgrupo de organismos imortais teria existência instável, pois, por não se adaptarem à mesma taxa dos mortais, sempre correria o risco de ser substituída por estes últimos.

- Espécies pluricelulares, de reprodução assexuada, não apresentariam senescência, mas poderiam perecer devido à acumulação de danos em seu DNA.

11- A “Equação da Morte”

Com esta teoria podemos agora esboçar a “Equação da Morte”. Esta equação seria uma avaliação do tempo de vida das espécies sexuadas –sua longevidade-, em função de algumas de suas características e a de seus predadores dentro de um ambiente estável.

Vamos supor que exista um ambiente como, por exemplo, uma ilha, onde presas e predadores convivem não muito pacificamente, já que os predadores se alimentam de suas presas para sobreviverem. Um lema se aplica a todos os ambientes naturais:

Se existe um recurso em grande abundância que pode ser utilizado pela vida, e se surgir um ‘predador’ que se beneficie deste recurso, sua população crescerá”.

A luz solar é um recurso em abundância que cobre nosso ambiente e pode ser utilizado pela vida. Então, pelo nosso lema, se surgir um ‘predador’ desta luz, por exemplo, um vegetal, que utilize esta luz solar, e crescerá enquanto houver este recurso disponível. Agora, neste exemplo, temos outro recurso em abundância: os vegetais. Da mesma forma surgirão os herbívoros que crescerão utilizando esta vegetação como recurso alimentar. Depois surgirão os vários tipos de carnívoros, e assim se forma uma pirâmide de presas e predadores com a vegetação na base da pirâmide, seguido pelos herbívoros, e as diversas espécies de carnívoros. O nível mais alto desta pirâmide alimentar seria o predador que se alimenta de carnívoros, mas que não é presa de nenhum outro organismo. Seria, por exemplo, o caso da águia, ou do leão. Devemos notar que o ambiente humano atual não é estável, pois estamos num processo de crescimento populacional acelerado o que descaracteriza o equilíbrio. Entretanto, os genes dos organismos terrestres se adaptaram, na maior parte dos quatro bilhões de anos que existe vida na Terra, em períodos de tempo de relativo equilíbrio. As grandes transformações ocorrem, em geral, em curtos períodos de tempo.

11.1-Condições Iniciais

Vamos supor que nosso ambiente seja relativamente estável, isto é, que esteja em equilíbrio dinâmico: organismos morrem e nascem, mas sua freqüência relativa permanece constante. Assim, o número total de organismos de qualquer espécie que habita nosso ambiente se mantém constante no tempo. É claro que a hipótese de um ecossistema estável não ocorre em tempos evolutivos. Na escala de milhões de anos, novas espécies costumam desaparecer e outras novas surgirem. Nossa escala de tempo é, portanto, menor. Assim, pela nossa hipótese inicial do ambiente estar em equilíbrio, temos para todas as espécies:

Taxa de Nascimento = Taxa de Morte (I)

Se a taxa de nascimento fosse maior que a de morte, a população cresceria continuamente até exaurir os recursos disponíveis. Se a taxa de nascimento fosse maior que a de morte, a população diminuiria até a sua extinção. Como estudamos anteriormente, podemos supor também que todas as espécies sexuadas tenham a morte programada, isto é, envelhecem e morrem. Se "X" é a espécie que queremis determinar a longevidade, podemos definir algumas variáveis, relativas a um instante de tempo qualquer deste ambiente:

L = Longevidade de uma determinada espécie X, isto é, seu tempo médio de vida antes de morrer de velhice. Nt = O número total de organismos desta espécie X. Nu = Número de organismos de X que procriaram ou procriarão. Nn = Número de organismos de X que morrerão sem se reproduzir.

Então:

Nt = Nu+Nn (II)

Se definirmos: G = Número médio de gestações por organismo que procriam (durante um período de tempo L). Isto é, G é o número total de gestações durante o período L dividida pela quantidade de organismos que procriam (G=Total de Gestações/Nu). Assim, num período L, os organismos que procriam irão gerar (G*F) filhos cada um, onde: F = Número médio de filhos por gestação por organismo que procriam.

Devemos notar também que no período L (Longevidade =período de vida do organismo da espécie X), todos os organismos da espécie de um dado instante qualquer, são mortos (de velhice ou por predadores) e substituídos pelos seus descendentes. Por exemplo: um organismo da espécie X, que acaba de nascer agora, daqui a um tempo L, estará morto, se não por predadores, por envelhecimento. Assim, num período L todos os organismos de um determinado instante, estarão mortos e toda a população será trocada.

No período L, toda a população é substituída pelos filhos dos organismos que procriam:

Nt = Nu * (G * F) (III)

11.2- A Taxa Evolutiva

Devido à constante troca de organismos em decorrência da morte, algumas mutações benéficas acontecem e as espécies evoluem. Se uma espécie não evolui, isto é, deixa de apresentar mutações benéficas, ela para no tempo, e pode ser extinta por predadores que continuem a evoluir, ou então é substituída por outra que consome os mesmos recursos que ela consumia. Então, para que o equilíbrio seja mantido a taxa de evolução de uma presa deve ser, pelo menos, equivalente à taxa de evolução de seus predadores. O inverso também é verdade: A taxa evolutiva de um predador deve, ao menos, acompanhar a taxa evolutiva das suas presas. Se, por exemplo, suas presas evoluírem adotando mecanismos de defesa contra o predador, e este não evoluir à altura, ele morrerá de fome.

Mas a taxa evolutiva de uma espécie é proporcional à taxa de mutações benéficas que a espécie sofre, e a taxa de mutações benéficas é proporcional à taxa de mutações, e a taxa de mutações é proporcional à taxa de nascimento dos que procriam nesta espécie. Assim, a taxa evolutiva da espécie é proporcional à taxa de nascimentos úteis, ou seja, dos organismos que procriarão, pois os organismos que não procriam não podem passar suas mutações, e não contribuirão para a “evolutividade” da espécie.

Então, para qualquer espécie, é válido:

Taxa Evolutiva = k * Taxa de Nascimentos Úteis (IV)

Onde k é a constante que converte a taxa de nascimento na taxa de mutações benéficas.

Se definirmos:

Tx= Taxa evolutiva da espécie X. Poderemos reescrever (IV) em termos de nossas variáveis:

Tx = k * Nu/L (Va)

Se definirmos ainda: Ti = Taxa evolutiva do i-ésimo predador Ni = Taxa de nascimentos úteis (que irão procriar) do i-ésimo predador Li = Longevidade (tempo de vida máxima) do i-ésimo predador

Utilizando estas variáveis, a fórmula (IV) pode ser re-escrita agora também para os predadores de X:

Taxa Evolutiva do i-ésimo Predador = k * Ni / Li (Vb)

11.3- A Base da Pirâmide

Para se manter em equilíbrio, em relação aos seus predadores, a taxa evolutiva de uma espécie deve ser proporcional à soma das taxas evolutivas de seus predadores. Se Ki (um número que varia de 0% a 100%) denota o grau de importância da espécie X no cardápio do seu i-ésimo predador (=predador i), e se considerarmos a "Taxa Ambiental" como a variação física (climática, por exemplo) no ambiente que a espécie habita, teremos:

Taxa Evolutiva de X = Soma{ Ki * Taxa Evolutiva do Predadori }+h*Taxa Ambiental (VI)

Ki=Constante que define o grau de importância da espécie X para a dieta do seu i-ésimo predador. Isto é necessário porque a espécie X pode não ser o cardápio principal de um dado predador(a), mas pode ser a dieta principal do predador(b) de modo que a taxa evolutiva deste último contribua mais para a taxa evolutiva de X. TxA = Taxa Ambiental. Variação física média no ambiente da espécie como clima, umidade, temperatura etc..

Colocando (VI) em termos de nossas variáveis, e utilizando as equações (Va) e (Vb), teremos:

Nu/L = Soma{ Ki * Ni / Li } + TxA (VII)

Se nós utilizarmos agora a equação (III), poderemos isolar a longevidade L, e teremos o tempo de vida por envelhecimento em função dos parâmetros dos predadores, do tamanho da população de X e do número médio de filhos por organismo:

L = (Nt / (G*F)) / (Soma{ ki * Ni / Li }+TxA) (VIII)

Esta fórmula serve apenas para os organismos da base da pirâmide alimentar, pois só contempla os predadores da espécie X, e não, ainda, o caso geral. Podemos simplificá-la um pouco para fazermos uma análise qualitativa.

Vamos simplificar a equação (VIII), tomando como hipótese que os predadores tenham a mesma taxa de nascimento e longevidade, isto é, que ki*Ni/Li = k1*N1/L1. E o ambiente não muda muito, isto é TxA=0. Se tivermos “M” espécies de predadores de X, onde X é sua única dieta (ki=1), e sabendo que N1 = Nt1/(G1F1), a fórmula (VIII) ficará simplificada para:

L = L1*(Nt /N1) / (G*F) / M (IX)

Podemos inferir, neste caso, que a longevidade L das presas da base da pirâmide alimentar é:

- inversamente proporcional ao número de filhos por organismo (G*F). - inversamente proporcional ao número de predadores (M). - proporcional à longevidade de seus predadores (L1). - proporcional ao tamanho da população relativa aos predadores(Nt/N1).

11.4- O Topo da Pirâmide

Agora iremos calcular a fórmula da longevidade da espécie X, quando X é um predador do topo da cadeia alimentar, como, por exemplo, uma águia, ou um leão.

Há uma assimetria entre estar na base da pirâmide ou estar em seu topo, pois o cardápio do predador que está no topo, sendo variado, ele não ficará a mercê de uma única espécie de presa, ao passo que do ponto de vista da presa, qualquer um de seus predadores, poderia, em princípio, exterminá-la. Ou seja, para uma presa, qualquer um dos seus predadores poderia, caso evoluísse mais rapidamente que X, levá-la à extinção. Assim, no caso em que X é um predador do topo da pirâmide, com vários tipos de presas disponíveis, a evolução rápida de uma destas presas pode não matar o predador de fome, já que este poderia se nutrir das outras presas de seu cardápio. De qualquer modo, se TxA é a taxa de variação ambiental:

Tx do Predador = Soma da taxa evolutiva das Presas+TxA (X)

Se Zi denota o fator de peso, um número entre 0 e 1, que indica o quão importante a i-ésima presa é para o cardápio do predador X. Então poderemos reescrever a equação (X) em termos destas variáveis:

Tx = Soma{ Zi * Tx_da_Presai } + TxA (XI)

Utilizando (Va e Vb) e (III) e (XI), teremos a fórmula para a Longevidade do predador do topo da cadeia alimentar em função dos parâmetros de suas presas:

L = (Nt / (G*F)) / (Soma{Zi* Ni / Li}+TxA) (XII)

Para efeito de análise, vamos simplificar um pouco a fórmula do predador, acima, e considerarmos que todas as suas presas têm a mesma importância no seu cardápio alimentar e que suas populações e tempo de vida são iguais, isto é: Ni = N1 e Li=L1, e o ambiente não muda(TxA=0), teremos então para a longevidade do predador do topo da pirâmide:

L = (Nt/N1) * L1 / (G*F) (XIII)

Ou seja, a longevidade do predador do topo cadeia alimentar é:

- Inversamente proporcional ao número médio de filhos (G*F). - Proporcional à longevidade média de suas presas (L1). - Proporcional à sua população relativa (Nt/N1).

11.5- A Equação da Morte

Vamos então calcular a longevidade no meio da cadeia alimentar, isto é, iremos considerar o caso geral, em que nossa espécie X pode ter várias presas e vários predadores.

Neste caso a espécie está “espremida” entre a evolução de suas presas e também à de seus predadores. A taxa evolutiva da espécie deverá ser a combinação das equações (VI) e (XI), onde teremos:

Taxa Evolutiva de X = Soma{ Taxa evolutiva dos predadores e Presas}+TxA (XIV)

Utilizando (XI), (VII) e (V), (XIV), e denotando Predadores{} como a soma em relação aos predadores de X, e Presas{} como a soma em relação às suas presas, teremos:

Nu/L = Predadores{ Ki*Ni / Li}+Presas{ Zi* Ni / Li }+TxA (XV)

Isolando a variável de longevidade L, teremos, finalmente, a

Equação da Morte:

L=(Nt/(G*F)) / [Predadores{Ki*Ni/Li}+Presas{Zi*Ni/Li}+TxA] (XVI)

Onde: L = Longevidade da espécie X. Nt = Tamanho total da população da espécie X. G = Número médio de gestações, por organismo, da espécie X. F = Número médio de filhos por Gestação. Predadores{} = Soma sobre os predadores da espécie X. Ki = Número entre 0 e 1 indicando o grau de importância de X no cardápio do i-ésimo predador. A soma de Ki não precisa ser a unidade. Ni = Tamanho da População que se reproduz da i-ésima espécie. Se estiver dentro de Predador{} será uma espécie de predador de X, se estiver dentro de Presas{} será uma espécie de presa de X. Isto é: Ni=Nti/(Fi*Gi) Li = Longevidade da i-ésima espécie. Zi = Fator de peso na ponderação. Número entre 0 e 1 que indica o quanto importante é a i-ésima presa na alimentação de X. TxA=Taxa média de Variação Ambiental (Clima, condições físicas do ambiente)

11.6- Verificações Empíricas

Podemos agora comparar nossa equação com os dados experimentais da longevidade dos animais [24]. Para um predador, a equação (XVI) pode ser simplificada na forma da equação (VIII). Nela verificamos que a longevidade é proporcional à idade média de suas presas, e proporcional ao tamanho de sua população em relação à de suas presas:

Um Tigre vive, em média, 17 anos. E algumas de suas presas são: Porcos 12 anos; Cabras 17; Javali 17, Macaco 13. O que parece estar de acordo com a equação. Um Rato vive, em média, 4 anos mas há um número enorme de predadores que se alimentam dele. De acordo com a equação (IX) seu tempo de vida é inversamente proporcional ao número de predadores, que são muitos. Portanto isso explicaria sua baixa longevidade.

Referências

[1] O Envelhecimento Biológico http://pierre.senellart.com/travaux/divers/vieillissement.pt

[2] A Gênese do DNA http://www.genismo.com/geneticatexto33.htm

[3] Bactérias http://www.enq.ufsc.br/labs/probio/disc_eng_bioq/trabalhos_pos2003/const_microorg/bacterias.htm

[4] O Limite de Hayflick http://pt.wikipedia.org/wiki/Limite_de_Hayflick

[5] Envelhecimento - fenômeno de Hayflick http://www.medicinageriatrica.com.br/2007/09/23/saude-geriatria/envelhecimento-fenomeno-de-hayflick/

[6] Genética do Envelhecimento – Telomerase http://www.medicinageriatrica.com.br/2006/12/28/saude-geriatria/teorias-do-envelhecimento-celular/

[7] Telômero http://www.icb.ufmg.br/prodabi/assuntos/simone.html

[8] Envelhecimento: Radicais Livres http://www.drrondo.com/art/envelhecimento.htm

[9] Fisher, Medawar, Hamilton and the Evolution of Aging http://www.genetics.org/cgi/content/full/156/3/927

[10] The Evolution of Aging http://www.azinet.com/aging/Aging_Book.html

[11] Varella: Os genes do Envelhecimento http://drauziovarella.ig.com.br/artigos/envelhecimento.asp

[12] Varella: Meio ambiente e Envelhecimento http://drauziovarella.ig.com.br/artigos/envelhecimento_meioambiente.asp

[13] Biologia do Envelhecimento: Teorias, Mecanismos e perspectivas http://www.abrasco.org.br/cienciaesaudecoletiva/artigos/artigo_int.php?id_artigo=2229

[14] Clark: O Sexo e as Origens da Morte i http://veja.abril.com.br/120406/p_132.html

[15] Clark: O Sexo e as Origens da Morte (II) http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/120406/trecho_sexo.html

[16] Clark: O Sexo e as Origens da Morte (III) http://gnoronha.blogspot.com/2007/04/morte-de-uma-clula.html

[17] Clark: O Sexo e as Origens da Morte (IV) http://gnoronha.blogspot.com/2007/04/o-sexo-e-origem-da-morte.html

[18] Sexo e as Origens da Morte William R. Clark, Editora Record, 2006

[19] Sexo e ciência: um tributo a Hamilton http://dererummundi.blogspot.com/2007/03/sexo-e-cincia-um-tributo-hamilton.html

[20] Helicobacter Pylori Droga Resistente http://www.laboratoriolpc.com.br/artigo18.php

[21] “A Mente Seletiva” Geoffrey F. Miller, Editora Campus, 2000

[22] A Rainha Vermelha explica o sexo? http://www.cecm.usp.br/~ltrabuco/escritos/redqueen/node19.html

[23] Por que mulher vive mais? http://www.genismo.com/psicologiatexto27.htm

[24] Tempo de Vida dos Animais http://www.saudeanimal.com.br/artigo52.htm

[25] Viver mais e melhor a ciência do envelhecimento http://www.tudook.com/saude/viver_mais_e_melhor_a_ciencia_do_envelhecimento.html

[26] Uma abordagem evolucionista do altruísmo http://aartedepensar.com/leit_soberego.html

[27] Qual bicho tem a vida mais curta? http://noticias.terra.com.br/educacao/vocesabia/interna/0,,OI3144283-EI8399,00.html

[28] Genoma Humano - O Mapa do Envelhecimento e da Morte http://video.google.com/videoplay?docid=6795697927445437059

[29] "O Animal Moral" Robert Writght, Editora Campus